O futebol salva a si mesmo

O futebol salva o próprio futebol. Já ouvi essa frase por aí, e ela não falha. Quando nos desesperamos com o futebol, ele mesmo vem em seu socorro e nos dá as esperanças de recomeço.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2014 | 02h03

Por exemplo, quando o Campeonato Brasileiro parecia se encaminhar para uma monotonia total, com o previsível bicampeonato para o Cruzeiro, eis que o líder começa a tropeçar. Perde duas em seguida, da maneira mais inesperada do mundo. Claro que, depois de tudo acontecido, não faltará quem diga que já havia previsto esses tropeções, que ninguém mantém o mesmo desempenho para sempre, etc. No entanto, ouso dizer que a maior parte dos observadores já considerava o título brasileiro de 2014 como coisa encerrada. Agora, já não vejo tanta certeza.

Verdade que o clube mineiro ainda dispõe de bela vantagem. Mas ela já foi maior. Agora caiu para seis pontos em relação ao Internacional, a sete para o São Paulo e nove para o Atlético-MG, seu rival de Estado. É ainda muita coisa, mas quem pode dizer que seja intransponível? Com mais dez rodadas pela frente, 30 pontos a disputar, tudo ainda pode acontecer. De modo que o que era chato, tornou-se emocionante. Voltou a ser. Para o bem de todos e felicidade geral da nação, menos para cruzeirenses que, eles também, já se consideravam com a mão na taça.

A outra (boa) surpresa veio com a vitória da seleção brasileira sobre a Argentina por 2 a 0. Todo mundo achava que o Brasil estava destroçado e era um azarão depois daqueles fatídicos 7 a 1 na Copa do Mundo. Afinal, jogávamos contra os vice-campeões mundiais, que venderam muito caro a derrota na final da Copa para a Alemanha, justamente o time que nos reduziu a pó de traque em pleno Mineirão.

Pois bem, o jogo começou exatamente como se imaginava, com a Argentina mantendo a posse de bola, jogando no campo brasileiro e parecendo que faria o primeiro gol no momento em que quisesse. Mas quem fez, e duas vezes, foi o artilheiro Diego Tardelli, em jornada de muita inspiração. E, como por milagre, diriam os pachecos nacionalistas, o Brasil reviveu, e, qual uma Fênix de chuteiras, renasceu das cinzas. Mostrou, talvez, que aquele jogo com a Alemanha foi mesmo um ponto fora da curva, mero desvio de percurso. Eu pessoalmente não acredito em nada disso. Acho que aquela derrota foi a metáfora - um tanto barroca, é verdade - de um modelo de futebol esgotado.

Mas a maneira como jogou contra a Argentina ao menos parece indicar uma recuperação, mais pronta do que eu poderia admitir. E ninguém me diga que foi um amistoso, etc. Nesse ponto, fecho com o senso comum: não existe jogo amistoso entre Brasil e Argentina. Por mais que o panorama globalizado seja desfavorável a essas grandes rivalidades, algumas delas ainda subsistem. Brasil x Argentina nunca será um confronto normal. Mesmo que os jogadores atuem no mesmo clube (como Neymar e Messi) ou disputem a mesma liga, ou sejam vizinhos ou compadres, algo do antigo frisson ainda sobrevive. E foi ele que imantou uma partida gostosa de ver, porque bem disputada e com jogadores de talento de ambos os lados. Deu Brasil, o que contribui para a reabilitação do "escrete".

O outro sopro de vida para o futebol vem, a meu ver, de onde menos se espera, da Fifa. E não é que essa entidade nada exemplar toma a iniciativa que se fazia necessária ao banir os intermediários do futebol e obrigar que os jogadores sejam vinculados unicamente aos clubes? A medida será aplicada de modo gradual e já gera polêmica, em especial na América do Sul, onde, tradicionalmente, os clubes andam de pires na mão e dependem de agentes, "empresários", "parceiros" e investidores para conseguirem montar seus elencos. Se a determinação da Fifa for aplicada para valer, a mamata vai acabar e esses exploradores terão de encontrar outra atividade para realizar lucros. A questão é tão ampla que sempre haverá quem discuta se a medida é oportuna ou não. Mas pela grita que vem causando entre sanguessugas pode-se apostar que o grande beneficiado pela medida será o futebol. Já estava mais do que na hora de esse esporte glorioso deixar de funcionar como lavanderia de dinheiro de odor suspeito.

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