O futebol se tornou profissional demais

Era uma vez um grupo de jornalistas que trabalhava no departamento de esporte de uma tevê. Quinze eram cameramen e cinco eram comentaristas da mesa redonda. Quando havia jogos, os cameramen iam com suas câmeras para o gramado e os outros para as cabines. Quatro câmeras acompanhavam o jogo propriamente dito, 11 se fixavam em outros aspectos da partida. Ficavam atentas aos deslizes, às gafes, às impropriedades e a toda sorte de acontecimentos polêmicos envolvendo tanto jogadores quanto juízes e auxiliares.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2010 | 00h00

A bola, o jogo em si, importava pouco para esses 11 cameramen. Tinham especial predileção pelos escanteios e pelas bolas paradas, ocasiões em que se esmeravam em não perder nada. Evidentemente não estavam à procura de algo belo ou artístico, mas de cotoveladas traiçoeiras, xingamentos, cuspidas, cabeçadas e qualquer outra manifestação que pudesse merecer reprovação da sociedade em geral e que teria passado despercebida não fossem as atentas câmeras.

Sabiam, também, quem eram os jogadores que poderiam oferecer bom material. Um goleiro, por exemplo, que durante a partida tivesse o costume de enfiar o dedo no nariz enquanto a bola estava longe era sempre alvo de uma câmera pacientemente à espera que fizesse o gesto esperado. Nada ficava escondido. Nada podia ser secreto ou mesmo duvidoso diante de tantas câmeras vigilantes.

Espionagem. Naturalmente o resultado da espionagem era comentado amplamente e alimentava a mesa redonda composta pelos cinco jornalistas. Fora do comportamento dos jogadores, é claro, havia o juiz, que era escrutinado sem cessar em todos os seus movimentos e verificadas todas as suas decisões. Duas ou três câmeras se destinavam a acompanhar "Sua Senhoria" por todos os cantos do gramado e mostrar sem contemplação, em câmera lenta, todos os lances em que suas decisões pareciam duvidosas.

A atenção maior, porém, era dirigida para as atitudes reprováveis dos jogadores. E os comentários eram, como seria de esperar, de total condenação, severa, firme, muitas vezes indignada. Os lances eram repetidos à exaustão, liam-se lábios, adivinhavam intenções, sempre na defesa da moral, da ética e do profissionalismo.

Essa era a palavra: profissionalismo. Jogador profissional não pode fazer isso, não pode fazer aquilo, isso é inadmissível, aquilo não dá pra aceitar, etc, etc, etc.

Bem, um dia o futebol mudou. À força de serem tão criticados, tão cobrados, os jogadores tornaram-se verdadeiros cavalheiros.

Pouco a pouco cessaram em campo as cuspidas, os comentários maldosos sobre a origem, a família e a masculinidade. Parecia incrível, mas não se via nem mesmo um mísero carrinho maldoso, ninguém mais perdia a cabeça.

Superjuízes. Os juízes também se aperfeiçoaram. Correndo como loucos, chegavam no lance antes das câmeras, começaram a enxergar mais que as lentes, viraram superjuízes. E assim, para a alegria geral, todo mundo se tornou profissional.

Só que, desde essa época, os onze camaramen procuravam o que registrar e não encontravam nada. Os comentaristas queriam a polêmica e não havia mais polêmica alguma. Um belo dia os quinze cameramen se apresentaram para trabalhar e constataram que onze estavam demitidos. Pouco depois foram demitidos também os jornalistas da mesa redonda.

Quando o futebol se tornou aquilo que por anos desejaram, perceberam que não tinham mais utilidade alguma.

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