O futebol vertical da seleção de Dunga

Boleiros

Paulo Calçade, O Estadao de S.Paulo

22 de junho de 2009 | 00h00

Aquele estilo refinado, de toques, de passes laterais, que parecem a suprema banalização do futebol não existe mais, acabou. O Brasil de Dunga e de tantos treinadores em atividade no País é vertical, de contra-ataques, como os europeus nos apresentam sistematicamente todo santo dia em suas competições. Na data do 39º ano do tricampeonato do México, a Itália levou mais uma goleada, daquelas para não esquecer. Um campeão do mundo não pode engolir um 3 a 0 impunemente. Quase quatro décadas depois, a seleção brasileira continua se reciclando, agora rumo à final da Copa das Confederações contra a Espanha, se não houver uma aberração até lá.O tempo passou e algumas coisas mudaram. Outras não. No México, em 1970, havia um time compacto, que sabia marcar em seu campo e partir rapidamente para o ataque. Uma geração abastecida por craques históricos, conduzida dentro dos padrões de velocidade da época. A diferença estava no ritmo de jogo, na circulação da bola em campo, na paciência. Dono de extraordinária condição física, o time de Zagallo sabia tocar a bola até encontrar espaços, produzia alternativas. Para se ter uma ideia, a seleção do tri consumia, em média, 19 segundos entre a recuperação da bola e o gol marcado. Já com Felipão, 32 anos depois, eram necessários 14,5s para a mesma missão. Sinal dos tempos, da evolução e talvez da involução do futebol. A questão principal, no entanto, é que entre uma conquista e outra existe um marco, a equipe de 1994, de Parreira e do capitão Dunga, um exemplo de organização defensiva. Com um meio de campo pegador (Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho), distante de nossas melhores tradições ofensivas, Bebeto e Romário personificavam o caminho do gol. Com uma transição fulminante entre defesa e ataque, em apenas 9,5s o time retomava a bola e detonava seus adversários. Não foi brilhante, mas serviu para quebrar um jejum de 24 anos. É pensando nesse estilo de jogo que voltamos aos 3 a 0 de ontem sobre a Itália de Marcello Lippi. O Brasil de Dunga não controla a posse de bola como ensina Parreira, onde o capitão do tetra parece ter buscado algumas referências, mas é vertical, apontado para a meta inimiga quando recupera bola. E acelera, como acelera!Os jogadores continuam sendo mais importantes do que um estilo. O craque inventa, reinventa, adapta-se. É o caso de Kaká nessa vitória. O meia participou das jogadas dos três gols. Nem seus ex-colegas na Itália, especialistas em marcação, foram capazes de detê-lo, uma questão de velocidade em dia de gala.No primeiro gol, Kaká abriu a bola para Maicon entrar em diagonal e chutar de esquerda. Luís Fabiano estava no meio do caminho e fez 1 a 0. O segundo e o terceiro, com participação especial de Robinho, foram aulas de contra-ataque, de como recuperar bolas e fixá-las no placar.Essa é a principal característica da seleção de Dunga. Depois de três gols em oito minutos, entre os 37 e os 45 do primeiro tempo, a equipe esperou a Itália e se manteve intacta. A segunda parte do jogo não agradou, mas é preciso entender que esse time completou sua quinta partida em 16 dias.Ainda falta alguma coisa. Mas Dunga tem se mostrado mais maleável. Demorou a perceber que precisava de uma alternativa para o meio de campo. De tanto ouvir falar em Ramires fez um teste. E não se arrependeu.

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