O futuro ausente

Vejo o basquete de três maneiras: política, técnica e emocional. O basquete está fora das quadras quando seus gestores batalham seus círculos de poderes, sejam como dirigentes, presidentes de federações e recentemente presidente da confederação brasileira de basquetebol, que é o cargo político mais elevado no âmbito nacional.A gestão do basquete brasileiro passou por doze anos de decisões equivocadas, sem resultados técnicos de nível, e viu um esporte de tradição e cultura, por seguidos insucessos nas grandes competições internacionais, dilapidar seu patrimônio histórico e técnico.É claro que uma resposta teria que ser dada a pessoas que pouco sabem sobre política, mas sentem na pele seus efeitos e brigam para que isso mude.Mudamos e toda mudança nos leva a escolhas: continuar a seguir planejamentos feitos pela gestão anterior ou dar uma resposta à comunidade do basquete e mostrar que essa mudança é efetiva e não apenas uma briga por quem tem o maior círculo de poder?Eu acredito que se continuarmos fazendo as mesmas coisas não conseguiremos resultados diferentes daqueles que obtivemos nos anos anteriores.O basquete está dentro da quadra quando treinadores, jogadores, ao invés de procurarem o máximo de rendimento possível, preferem subterfúgios tupiniquins, prensinhas no juiz, intimidação, entrevistas, etc., para conseguirem os resultados que deveriam ser obtidos apenas com o treinamento apropriado e a dedicação total a um esporte que mais do nunca precisa disso.Nossos principais atletas voltam de suas equipes da NBA e Europa, onde se defrontam com os melhores jogadores e o melhor nível de treinamento do mundo, para se depararem com uma realidade totalmente diversa da que há muito estão habituados, baseada em critérios e fundamentos de antanho e que só nos trarão (e eles sabem disso muito bem) os mesmos resultados obtidos nos anos anteriores.Nossos treinadores, habituados a realidades onde o importante é vencer a qualquer custo, são forçados a atender essa prioridade e esquecem-se do correto ensinamento do jogo e de seus fundamentos, escondendo as deficiências de seus atletas ao invés de corrigi-las, pois afinal de contas o círculo do poder exige vitórias aos imberbes e não o seu progresso como atleta e pessoa. Isso também nos traz apenas os resultados obtidos nos anos anteriores.O basquete está dentro das pessoas, quando elas o amam como ninguém, o estudam todos os dias e veem nele um futuro brilhante, que as levam a esquecer de círculo de poder, treinamentos insuficientes, campeonatos perdidos "por detalhes" e a se dedicarem intensamente para levar o nome do basquete brasileiro cada vez mais alto.Estas pessoas precisam apenas de uma chance para realizar seus sonhos, sejam esses dentro ou fora das quadras.Precisam de uma oportunidade para demonstrar a grandeza de nossos jogadores quando treinados apropriadamente e a trazer de volta os resultados que nos faltaram todos esses anos.A política é importante? Sim é, mas o amor pelo jogo é muito mais.Os que vivem e gostam do basquete brasileiro esperam há anos por uma mudança radical nos rumos do nosso esporte, pois no Brasil o instrumento de marketing principal é a seleção brasileira de qualquer esporte.É ver o Brasil derrotar um adversário impossível de ser vencido, que dá exemplo a outros praticantes do esporte.É assistir a uma Olimpíada ou a um Mundial de basquete que servirá de exemplo a garotos e garotas que também sonham em participar e uma competição desse nível.São as vitórias da nossa seleção que nos colocarão novamente na listas dos esportes mais procurados para investimento.Vitórias são o que nos faltam, mesmo tendo uma aptidão incomum para o jogo de basquete, mesmo tendo jogadores disputando finais em campeonatos no mundo inteiro.Só uma mudança fora das quadras, dentro das quadras e dentro das pessoas conseguirá nos levar de volta a um lugar de destaque no basquete mundial.Politicamente a mudança já começou, mas será que ela acontecerá também dentro do campo técnico ou continuaremos a assistir a uma maneira "clássica" de jogar?Será que nossos jogadores poderão aproveitar todo o seu potencial técnico ou ficarão limitados pelo pouco conhecimento do jogo de quem os acolhe por aqui?Será que esta mudança também acontecerá dentro das pessoas e elas, por sua vez, acreditarão que será possível derrubar certos conceitos ancestrais e abrir o coração e a mente ao novo?A esperança do basquete brasileiro é uma mudança total na política, na técnica de jogo e nas cabeças dos responsáveis por ele.Conseguiremos? * Marcel de Souza é ex-jogador da seleção brasileira de basquete, campeão pan-americano em 1987 nos EUA e hoje é médico

Marcel de Souza *, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

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