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O futuro

Penapolense e Ituano estão nas semifinais do Campeonato Paulista. Podem chegar às finais, e até ao título. Dão a impressão de que o futebol do interior de São Paulo está mais vivo do que nunca, sólido e vigoroso. Pena que seja apenas uma impressão.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2014 | 02h04

Esta semana conversei com Fernando Martinez, pesquisador, estudioso, observador incansável do pequeno e invisível futebol que quase ninguém vê e poucos notam. Faz parte de um grupo que produz um site chamado "Jogos Perdidos" que, como o nome indica, tenta jogar alguma luz sobre um futebol que se dá nas sombras e fora dos noticiários.

Fernando percorre cidades e mais cidades vendo jogos incríveis, em estádios semivazios, onde se exibem jogadores anônimos e outros nem tanto. Todos perdidos na Segunda, Terceira, Quarta Divisão dos campeonatos organizados pela Federação Paulista de Futebol. Parece coisa de louco, mas é coisa de sábio. Porque com suas andanças Fernando fica sabendo de tudo.

Nas suas palavras, o interior não tem mais nem dez anos de vida. Está morrendo diante dos olhos de todos. Times tradicionais estão perdidos na Terceira Divisão, como Juventus e Noroeste de Bauru, os dois a caminho da Quarta. E a Quarta é a última, além dela é o nada. De lá não se volta, como do Inferno de Dante. Lá estão times como a Portuguesa Santista, o XV de Jaú ou o Nacional. É uma verdadeira destruição organizada.

Há inúmeras razões para isso. Quem se interessar e quiser conhecer o verdadeiro estado do futebol do interior procure o site www.jogosperdidos.com. Na realidade, ninguém mais torce pelos times do interior, a começar pelos habitantes da própria cidade. A cidade é a primeira a abandonar o clube quando ele entra numa fase particularmente ruim. Contam-se nos dedos cidades que permanecem fiéis a seus times, como Piracicaba ou Lins. Esta última jamais abandonou o Linense. Fernando cansou de ver jogos do Linense na Terceira Divisão, com casa cheia. O resultado é que ele voltou para a Primeira.

Mas essas cidades são poucas. Geralmente a própria imprensa da cidade não se ocupa mais do clube. A obsessão pela vitória e pelos vencedores atinge a tudo e a todos. Está atingindo, aliás, até os grandes clubes brasileiros que têm hoje menos espaço na imprensa que Real Madrid, Barcelona, Bayern ou Manchester.

Se isso acontece nos grandes centros, é fácil supor o que se passa no interior. Clubes estão desaparecendo, ou já desapareceram totalmente. Não há no mundo visível mais nenhum vestígio do Corinthians de Presidente Prudente, por exemplo, um tradicional clube integrante da Primeira Divisão do Paulista por vários anos. Nada resta, nem a sede, nem mesmo o estádio, hoje um shopping center. Ninguém em Presidente Prudente gosta muito de falar sobre isso. Parece que o time jamais existiu.

Essas pequenas equipes são cada vez mais vítimas desses nossos tempos predatórios. O Jabaquara, o velho Jabuca, não tinha dividas e suas finanças estavam equilibradas. Mas, no desespero de voltar das profundezas, se aliou a um empresário que lhe prometia um time inteiro de jogadores, supostamente de qualidade. O time do empresário foi um fracasso monumental e, não contente, ele ainda deixou o Jabaquara quebrado, com dívidas feitas em seu nome.

É isso que está acontecendo. O Comercial de Ribeirão, que acabou de subir a duras penas para a Primeira Divisão, já caiu de volta à Segunda. Quando terminar o atual Campeonato Paulista, muitos times do interior vão permanecer inativos por longo tempo. E serão desmontados, pois como pagar jogadores que não jogam?

Essa é a situação do interior: estádios vazios, cofres vazios, esquecimento da mídia, nenhum planejamento, nenhum futuro. A esperança desses clubes é gente como Fernando Martinez e a generosa loucura de seu pessoal dos "Jogos Perdidos". No mais, parabéns e boa sorte para o Ituano e para o Penapolense.

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