O gol é o afrodisíaco

O gol é o afrodisíaco

O que explica o futebol antiburocrático e altamente eficaz do Barcelona e do Santos? A causa é o efeito: o gol. Não é por acaso que em sua melhor temporada Messi já fez 34 gols em 38 jogos. E gols de tudo que é jeito, assim como o amor pede variadas maneiras, alternados ritmos e posições. Quando o cineasta Pier Paolo Pasolini se encantou com a seleção brasileira de 1970 e falou dos momentos em que o futebol era como a poesia, se referiu aos gols e aos dribles; jamais tratou o resultado como detalhe, o "avanço numérico" como mera preocupação de estatísticos. O que pode ser mais bonito do que um arranque com dribles que culminam com o filó estufado? O gol é a cantárida, o guaraná, a catuaba do futebol. A rede é Afrodite tentando.

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2010 | 00h00

Veja Messi partindo com a bola: note sua energia intensa, sua ansiedade hábil, sua obsessão esperta pelo clímax. É a comprovação de que o futebol é ao mesmo tempo individual e coletivo: Messi precisa da equipe para fazer uso de sua liberdade e talento; a equipe precisa dele para ganhar os jogos. Com apenas 1,69 metro, compactados e apurados pela moderna fisiologia esportiva, ele une vigor e técnica como poucos. Maradona era ainda mais surpreendente, ainda mais inventivo, mas Messi tem mais velocidade e um domínio de bola igual ou até superior, por isso faz mais gols em média ? e numa época em que é difícil artilheiros superarem 0,7 ao longo de muitas temporadas.

Ele usa as duas pernas para conduzir, driblar e finalizar. É capaz de se livrar de um marcador em dois palmos de grama. Chuta cada vez melhor, de perto ou de longe, com força ou sem força, e também tem feito muitos gols de cabeça. Ao contrário de outro virtuoso, Ronaldinho, não precisa receber a bola no pé e aí brilhar: sua movimentação é constante, numa excitação que não parece ter fim. É verdade que tem preferência por um movimento, o deslocamento diagonal da direita em direção à área, pelo motivo óbvio de que pode cortar os zagueiros para dentro e concluir com sua melhor perna, a esquerda. Mas ai do zagueiro que achar que pode antecipar o momento exato da ação...

O que impressiona nele, e que é algo que o incomparável Pelé também tinha, assim como Ronaldo nos bons tempos, é que a rapidez não obscurece o pensamento; ao contrário, parece estimulá-lo. Tanto é que aprendeu agora, com meros 22 anos, a decidir com grande grau de acerto o momento de tentar o enfileiramento de adversários e o momento de passar, buscar tabelas, deixar o companheiro na cara do gol ou mesmo recuar ou dar um toque de lado à espera de outra ocasião para o bote. Se for simplesmente para esbarrar a testa na bola, ele esbarrará; se tiver três zagueiros em volta, criará um caminho para sair dali. Ok, ele precisa fazer o mesmo na seleção ? desde que seus companheiros o ajudem a ajudá-los ? e brilhar numa Copa para ser comparado definitivamente aos nomes que citei aqui. Mas o que já faz só merece entusiasmo.

A propósito: deve haver algo no tempero que inspira tanto os homens do Barcelona. Cruyff, Maradona, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, agora Messi: todos tiveram ali temporadas encantadas e marcaram mais gols bonitos do que Tiger Woods acumulou mulheres. E ganharam taças e, mais importante, entraram na antologia dos melhores momentos do esporte. O pênalti convertido por Ibrahimovic era para ter sido mais um, pois Messi deu chapéu, cortou duas vezes o zagueiro e só não marcou porque foi derrubado.

E o que será que tem nas brisas de Santos? Os meninos da Vila, como o mais completo Messi, só pensam "naquilo". Todos querem fazer gol, sem abrir pé da organização e da solidariedade. Neymar disse claramente que seu avanço em relação ao ano passado se explica pela busca de meter bola na meta. Há sempre o que melhorar, principalmente contra times mais consistentes ou experientes, mas a demonstração de que a criatividade recompensa não tem preço. Viva o gol, que move o sol como as estrelas.

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