O golaço do ano

Costumo esperar os jogos de quarta-feira para definir o tema da coluna. Anteontem, durante a noite fria, vi o Santos jogar como time grande (que é), de respeito, e conquistar a Recopa. Neymar, claro, estava em campo e comandou a vitória - sem ele, o Alvinegro de 2012 parece equipe de segunda linha. Em seguida, tive a infelicidade de assistir a São Paulo x LDU de Loja (um conjunto bagrinho do Equador), partida de qualidade sofrível que atestou ainda mais a falta de ambição e criatividade do atual elenco tricolor.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2012 | 03h04

Fiquei profundamente arrependido de ter perdido duas horas para acompanhar essa "pelada" realizada no interior equatoriano. Quando o embate pela Sul-Americana estava perto de começar, olhei para o DVD "Para Roma com Amor", de Woody Allen, que estava em cima do sofá, e balancei. Filme ou futebol? Acabei indo para a segunda opção. Esperava um pouquinho mais do São Paulo e me dei mal.

Saí da sala sem assunto definido para a coluna. Neymar deu um título para o Santos. Ok, mas vou falar mais o que desse gênio santista? Repetir que o Brasil para ele não acrescenta mais nada e chegou a hora de ir para a Europa? Poderia escrever sobre a pobreza do meio-campo do São Paulo ou a apatia de boa parte dos jogadores. Óbvio demais. Faz tempo que esse Tricolor anda sonolento, preguiçoso, sem graça.

Por sorte, havia esquecido a TV ligada. Enquanto me preparava para dormir, ouvi, de longe, o apresentador de um telejornal contar o fato que mais chamou minha atenção. O personagem: Miroslav Klose, aquele veterano atacante, artilheiro de Copa, várias vezes campeão alemão, vice-campeão do mundo.

O rapaz fez um gol com a mão para a Lazio, contra o Napoli, pelo Campeonato Italiano. A confusão se formou, houve bate-boca entre os atletas e alvoroço na arquibancada. O próprio Klose tratou de encerrar o assunto, calou a torcida e pôs fim à bagunça. Dirigiu-se até o árbitro e lhe disse que o lance fora irregular, que havia posto a mão na bola. O juiz, surpreso, anulou o gol.

O confronto era importante para os dois times, concorrentes diretos na briga por uma vaga na Copa dos Campeões. O placar apontava 0 a 0. Um gol, naquele momento, teria influenciado a sequência da partida e poderia ter mudado completamente o resultado. No fim, a Lazio levou uma surra (3 a 0), e seguramente há torcedor lastimando a iniciativa de seu artilheiro.

De acordo com as regras e o manual de ética, Klose errou ao ter colocado a mão na bola. Sem dúvida. Seu comportamento na sequência, porém, não poderia ter sido mais digno, nobre. A ponto de ter redundado em aplausos da torcida rival e cumprimentos dos adversários.

Não há pecado em, de vez em quando, o atleta usar um pouco da malandragem. Mas, numa época em que temos simulação de faltas em excesso, reclamações desmedidas com a arbitragem e a Lei de Gerson praticada em todos os cantos, gestos como o de Klose fazem muito bem ao futebol e valem bem mais que uma bola na rede.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.