O grande jogo da semana

Clássico é um jogo que se repete ao longo do tempo, mantendo a tensão da primeira vez. É a tentativa de reviver a batalha inicial e conservar no tempo um jogo, o primeiro, que fez história. Só que o clássico, para preservar sua grandeza, precisa ser econômico. Não pode ser a toda hora, não pode ser de qualquer jeito, não pode ser a qualquer propósito, ou sem nenhum propósito.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2011 | 00h00

A repetição de grandes clássicos nas diversas competições que infestam o futebol brasileiro, e que visam apenas dinheiro, já acabou, ou está em vias de acabar, com grandes clássicos. Que se tornam óbvios, repetitivos e monótonos, passando, portanto, a ser uma partida comum.

Agora, estendendo as nefastas iniciativas, a banalidade dos clássicos atinge também as seleções. Brasil x Argentina está virando uma partida igual às outras. Tempo houve em que era um jogo especial, que se dava de vez em quando, em raras ocasiões mesmo, sempre em competições de importância, e era aguardado com ansiedade e temor, como deve ser um verdadeiro clássico.

Nem se cogitava em falar de amistoso entre Brasil e Argentina. Não havia nenhuma possibilidade dessa classificação para esse grande clássico das Américas. Agora aparece na televisão a todo momento, até quando jogam nas chamadas categorias de base. É uma pena. Um dos resultados disso é um jogo sem grandes jogadores de parte a parte, que se salvou por uma jogada do Leandro Damião e uma ou outra de Neymar, aliás o único astro em campo.

É melhor ver algum jogo raro e inesperado. Nesse sentido gostei mais de ver Portuguesa x Barueri. Sim, por puro acaso topei com esse jogo e revi a Lusa, de tão longeva tradição. Não é mais tão frequente vê-la nos dias que correm e devo dizer que a visão daquelas camisas, velhas conhecidas, me fez muito bem. Aliás, vi um time muito bem preparado pelo Jorginho, com alguns desconhecidos jogadores, muito interessantes e promissores. Nas arquibancadas o espetáculo dos torcedores, sempre esperançosos e fiéis. Enfim, melhor um jogo assim, verdadeiro, do que clássicos que estão se tornando falsos.

A Portuguesa é um time fascinante. Não há torcedor que seja indiferente à Lusa. Especialmente gente que vem acompanhando o jogo por muitos anos. Outro dia almocei com um santista, daqueles que estão além do fanatismo. Fanatismo esclarecido, porém. Santista histórico, que conhece todas as glórias, as façanhas e as conquistas de seu amado time. Como é alguém da minha geração, não sei bem como, na conversa acabou entrando a Portuguesa. E lembramos de surras gloriosas que tanto o time dele como o meu levaram da Lusa.

Fui lembrado de um 5 x 1 e retruquei com um 8 x 0 que a Lusa aplicou no time do meu amigo, que, aliás, me confessou ter visto o jogo e lembrava até das condições climáticas; chuva, sobre um Pacaembu enlameado.

É possível que não haja clube grande que tenha escapado de uma boa goleada da Lusa. Ficamos lembrando dos seus grandes jogadores através dos anos e a saga desse estranho clube, que se sai muito melhor contra os grandes do que contra os pequenos. Lembramos a mística que segue a Portuguesa e tentamos entender a razão do poder que exerce na imaginação dos torcedores de outros clubes.

De repente, com um meio sorriso, o santista de quatro costados me diz: "Sabe que até hoje sei de cor o time da Portuguesa de 1952?"" E sem hesitar começou: Muca, Nena e Ermínio. Santos, Brandãozinho e Ceci. Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão. Qual a força que tem esse clube que faz com que sua escalação se tenha solidificado na cabeça de um fanático torcedor de um rival? Que estranho mistério tem a Portuguesa, que desperta lembranças desse tipo? Porque, sem confessar, pois poderia parecer estranho, inclusive mentira, eu também sabia com a mesma exatidão a escalação daquela Portuguesa de 1952!

Por essas e por outras, meu jogo da semana não foi Brasil x Argentina, mas Portuguesa x Barueri.

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