O grande mistério

Se fôssemos avaliar o Campeonato Brasileiro de 2012 pelo nível dos times que lutam pela liderança, seria possível classificá-lo de espetacular. O Fluminense lidera com inacreditáveis 73,6% de aproveitamento. O Atlético-MG, vice-líder com um jogo a menos, faz ainda melhor: 73,9%. Já o Grêmio, terceiro, tem ótimos 65,3%. As três equipes estão com 15 vitórias até aqui, com grande aproveitamento fora de casa. O Fluminense chega a ter mais pontos conquistados fora do que em casa, com apenas uma derrota em 24 jogos. Juntos, os três marcaram nada menos do que 115 gols e sofreram apenas 51. A disputa pela liderança é ponto a ponto, gol a gol, numa marcha eletrizante.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2012 | 03h04

Visto por essa perspectiva, o Brasileirão se parece com algumas daquelas provas olímpicas de atletismo, nas quais vários atletas fazem marcas suficientes para bater o antigo recorde mundial. Um campeonato desses, imaginaria um turista de outro planeta, deve estar enchendo os estádios. No entanto, o líder da tabela jogou na última rodada diante de 3 mil torcedores, enquanto os confrontos do terceiro e do quarto colocados foi testemunhado por 2 mil almas. As médias de público do mais importante evento do principal esporte nacional andam indigentes, como se o futebol fosse um esporte periférico.

Fred, Deco, Ronaldinho Gaúcho, Marcelo Moreno, Elano, Juninho Pernambucano, Dedé, Seedorf, Luís Fabiano, Forlan, Leandro Damião, Montillo, Emerson, Vágner Love, Barcos, Ganso, Neymar... Há quantos anos o Brasileirão não reunia tantos craques? Qualquer estudioso seria capaz de jurar que um campeonato tão bem servido de ídolos, com três a quatro times brigando pelo título e mais uma meia dúzia lutando por vagas na Libertadores - fora os que brigam para não cair -, deveria encantar as multidões. O motivo pelo qual isso está longe de acontecer é um grande mistério.

Podemos tentar achar explicações para esse descompasso entre gramados cheios de emoção e arquibancadas vazias de dar dó. Explicações nem seria o termo. Podemos arriscar palpites. Há quem diga que o problema é a Copa de 2014, que interditou estádios públicos e levou muitos clubes a fazer reformas ou construir estádios particulares. Eu até aceitaria essa explicação se as partidas estivessem sendo realizadas fora das grandes cidades, mas não é o caso. Outro motivo alegado é o desencanto do brasileiro com o futebol, por conta do péssimo momento da seleção. Ora, já vivemos muitas fases lamentáveis da seleção com os jogos dos clubes ainda assim enchendo estádios.

Dois motivos me parecem aceitáveis. O primeiro é cristalino: a falta de foco da CBF, que investe a maior parte de seus esforços na seleção e deixa o Brasileirão abandonado, sem calendário inteligente e sem promoção. Os clubes também pecam bastante pelo amadorismo na hora de atrair o público. Mas há um último motivo, bem menos óbvio, que pode render discussão: será que o crescente e avassalador fetiche dos clubes com a Libertadores não está tirando o brilho do Brasileirão? Será que a competição continental, que até os anos 80 parecia valer menos do que um estadual, não terá virado a única coisa importante, tornando o título nacional conquista de segunda linha? Fica a provocação.

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