O homem que não sorri

Quem tem paixão pelo futebol mostra isso nos olhos. Cedo ou tarde eles brilham refletindo uma alegria encardida na lembrança, como aquela camisa velha guardada com os significados que só você sabe. Mesmo quem coleciona decepções é capaz de se divertir porque futebol é isso, é alegria e resistência à dor.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2012 | 03h03

E assim ficamos vacinados pela beleza que nem sempre está em estádios arrumadinhos e uniformes de primeira linha. Quem curte futebol de verdade certamente já foi flagrado assistindo partidas de qualidade duvidosa que só você sabe explicar os motivos. E provavelmente também já se apoiou num alambrado enferrujado para permitir ao tempo escorrer entre um passe e um gol.

As histórias que meu tio contava sobre os 22 anos de fila do Corinthians eram tão divertidas e fascinantes que pareciam fazer parte da trama. Ele era tão convincente que o sofrimento, repleto de significado, fermentava vitórias e derrotas no mesmo sentimento.

São coisas tão simples e sensíveis que obviamente contrastam com o momento político-administrativo da Confederação Brasileira de Futebol e de seu presidente, cada vez mais bamba e enrolado na sua própria corda.

Ricardo Teixeira não tem o menor apreço pelo jogo de bola, seja o praticado no campinho careca ou na tribuna de honra, ombro a ombro com o que existe de pior e mais fétido na cartolagem nacional e internacional. RT não sorri nunca, está sempre de cara amarrada. O futebol o aborrece, mas ele o tolera.

Vamos imaginar o Brasil livre do ex-genro de João Havelange. Como seria o dia seguinte? Nos últimos 23 anos, período de sua nefasta administração na CBF, tivemos muito tempo para conhecer o estilo empregado na operação do poder. No que diz respeito às tarefas e obrigações como gestor, a marca foi o deboche, o desrespeito e a lentidão em perceber o óbvio. Dependendo de como for escrito, o currículo do cartola será composto apenas de fatos relevantes: o calendário melhorou e as instituições passaram a ser mais respeitadas. A seleção ganhou dois Mundiais, 1994 e 2002, e o País o direito de receber a Copa. Mas tudo sem dar um sorriso. Como ele é legal e sensível!

Enquanto o comandante observa o torpedo vindo em sua direção e o vazio toma conta do poder, seus antigos aliados praticam MMA nos bastidores para ver quem vai comandar a máquina até a Copa. E que máquina!

Sem Teixeira a CBF cairá nas mãos de algum nome ligado às federações. E a tendência é que a frágil administração do futebol brasileiro retroceda, colocando em risco algumas das conquistas dos últimos anos. Afinal, os novos gestores terão uma enorme fatura política para saldar enquanto os clubes brasileiros simplesmente não se manifestam.

Sobre RT não sorrir, não confunda com as gargalhadas que nós, os babacas, proporcionamos a ele. Da nossa cara ele ri todo santo dia. Como poderia agir o homem que comanda algo que simplesmente detesta?

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.