O impressionista

Por que tanta gente se encanta com a ideia de Pep Guardiola treinar a seleção brasileira? A resposta mais óbvia é que em tese aumenta a probabilidade de o time nacional voltar a vencer e a disputar uma Copa do Mundo com chances reais de vitória.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2012 | 02h08

Simples assim? Mas desta vez os meios podem justificar os fins. Esse encantamento todo é fruto do reconhecimento de um estilo, de uma maneira de jogar que pode ser recuperada pelo nosso futebol.

Nem todo mundo está disposto a ganhar de qualquer jeito, na base do custe o que custar. Tem muito brasileiro a fim de ver seu time praticando um futebol com mais qualidade, juntando a efetividade da seleção de Parreira, campeã mundial em 94, com a arte da equipe de Telê Santana, em 82, que não ganhou nada, mas entrou para a história.

Sem o fracasso espetacular nem o triunfo indigesto. Aí é que entra Guardiola. No comando do Barcelona ele conseguiu as duas coisas, graças a jogadores geniais como Messi, Xavi e Iniesta e ao lançamento de quase duas dezenas de meninos fabricados em La Masia, a agora mítica divisão de base do clube catalão.

É quando começam as diferenças. Guardiola traria com ele um jogo ideológico, um modelo impossível de ser reproduzido por aqui em todos os seus detalhes a um ano e meio da Copa do Mundo só porque o treinador mais desejado do planeta assim deseja.

No Barça, por mais competente que seja o clube, e é, Pep tinha uma estrutura muito bem afinada, funcional, dos times da base à condução do grupo principal. E com cartolas que sabem o que estão fazendo.

Não se trata de uma forma de minimizar a importância do comandante catalão. Mas é preciso contextualizá-lo na CBF, imaginar como ele poderia funcionar num terreno, do ponto de vista das ideias, absolutamente desértico.

Afinal estamos falando de um jogo conceitual, no qual finalmente pode-se usar, sem medo de jogá-la ao vento, a palavra filosofia. Era o que o Barça tinha com Pep e continua mantendo com Tito Vilanova, mesmo com algumas diferenças no que diz respeito a Lionel Messi, mas essa é outra conversa.

O jogo ideológico de Guardiola exibe alguns pilares fundamentais, e ninguém é capaz de garantir que possam ser reproduzidos fora do Barcelona. Mas não custa tentar. Quem acompanha a coluna já sabe: posse de bola, passe, movimentação e infiltração até se chegar à finalização, nessa ordem.

Seleção é diferente de clube, a falta de tempo é um ativo importante. Por isso a queda de Mano Menezes pode significar avanço ou retrocesso. Justamente quando o treinador conseguia encontrar algumas luzes, como Paulinho e Ramires juntos, e a volta de Kaká para formar um time sem centroavante, o nome a ser escolhido preocupa. Pode ficar pior.

Dependendo da escolha, o debate sobre o estilo de jogo torna-se banal. Pois se tem uma coisa que não encanta Felipão, por exemplo, é esse joguinho "chato" do Barcelona.

Percebeu o perigo? Por que Guardiola? Porque é o mais impressionista dos treinadores de futebol. Trouxe cores e ideias para um futebol.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.