O indivíduo e a história

Tenho lido e ouvido explicações cada vez mais táticas para as derrotas de seleções fortes, como a da Espanha para a Suíça e a da Alemanha para a Sérvia, para o empate da Inglaterra com a Argélia e mesmo para a magra vitória do Brasil sobre a Coreia do Norte. É claro que erros de escalação, organização e orientação pesam muito, principalmente quando se tem um treinador como Fabio Capello, para ficar num só exemplo, que fez questão de engessar a boa equipe inglesa em um ou dois tipos de jogadas. E é claro que seleções como as africanas carecem de maturidade tática, não por não saberem se defender em sincronia, mas por não saberem atacar em sinfonia.

DANIEL PIZA, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

O papel dos jogadores, como o papel dos grandes homens na história, não pode ser menosprezado. Se Podolski tivesse acertado o pé anteontem, as mesmas análises se deteriam na liberdade com que ele apareceu pelo lado direito da defesa sérvia. A Argélia complicou os avanços pela ponta dos ingleses, mas, se Heskey não tivesse se enrolado com a bola várias vezes na direita, a defesa não seria tão elogiada.

No aspecto positivo, jogadores também são capazes de dar identidade ao time, muito mais orgânica do que aquela que vem da prancheta do técnico. Os argentinos, por exemplo, se deixaram contagiar por Messi. Entenderam seu ritmo, sua variação do arranque e do drible para a tabela e a assistência, sua voracidade inteligente - e Tevez, Agüero, Di Maria e Higuaín subiram de produção no jogo com a Coreia do Sul. Bom técnico é o que não atrapalha onde não precisa ajudar e ajuda onde o time se atrapalha. Resta ver se Maradona será capaz de atender a este último requisito.

Ontem a Holanda teve apenas alguns lampejos do futebol que seu elenco ainda pode mostrar, mas conseguiu bater o dedicado Japão por 1 a 0. Jogadores como Sneijder, Van Persie e Robben, que deve voltar ao time em breve, pelo menos tentam não ser meros cumpridores das ordens do professor. E Gana, no empate por 1 a 1 com a Austrália, continuou a manter as esperanças locais de que algum time do continente vá mais longe, graças a jogadores que correm algo caoticamente em busca do gol alheio e chutam com força. A outra seleção africana ainda com chances é a Costa do Marfim. Mas tem o Brasil pela frente hoje.

O que a seleção brasileira precisa é de um choque de ousadia, amarrada como está, e até o momento só um jogador foi capaz de transmitir um pouco de eletricidade: Robinho. Se Kaká e/ou Luís Fabiano não aparecerem, não há garantia de que a subida dos laterais e um acerto eventual de Elano venham de novo em socorro. O adversário pretende passar uma fita isolante no meio, não recuada demais, de modo que o contra-ataque com Drogba funcione. Para romper ou saltar essa fita, o melhor esquema não é um esquema: é o passe surpreendente, o drible eficiente, a visão criativa. É a reação libertária, a desobediência civil, a revolução conciliatória. Que Mandela os ilumine.

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