O inglês de Joel Santana

O humor é uma arte difícil e não é para qualquer um. Muitas vezes passa por humor o que é apenas idiotice, preconceito e arrogância. É esse o pensamento que me ocorre ao saber das inúmeras piadas que correm, naturalmente pela internet, sobre a maneira como se expressa em inglês Joel Santana, técnico da seleção da África do Sul. Em primeiro lugar apontar os erros de gramática de alguém equivale a um golpe baixo e desleal e devia por si só desqualificar imediatamente quem faz uso desse expediente. O que interessa são as ideias desse alguém, seu procedimento e o resultado de suas ações, e não a maneira como fala. Estou cansado de ver, neste País onde falar bem inglês é considerado sinônimo de erudição e superioridade cultural, perfeitas idiotices apresentadas com toda seriedade, em português gramaticalmente aceitável. No caso do Joel a coisa é ainda menos justificável, porque está sendo ridicularizado não por falar mal sua própria língua, o que, como disse, já seria condenável, mas inglês. Como se vivêssemos numa terra em que alguém fala bem inglês. Como se fosse possível a alguém, por exemplo, do Brasil, falar perfeitamente inglês. Ou se considera saber inglês repetir com pronúncia mambembe algumas expressões dessas escritas nas camisetas ou coladas nos vidros traseiros dos carros? Essa gente que faz gracinhas pela internet deve ser do tipo que o papai paga "imersões" de três meses em Nova York e que voltam achando que falam inglês porque conseguiram pedir sem gaguejar um hambúrguer no Jackson Hole.Na minha opinião, e posso estar errado, ninguém consegue falar perfeitamente uma língua que não seja a sua, nativa. Sotaque e erros ocasionais sempre acontecem, mesmo quando se está vivendo no lugar por anos. Todo mundo carrega sua própria língua consigo até morrer.Uma das experiências mais marcantes para mim foi ouvir como se expressava em inglês um escritor famoso que, apesar de ser um expatriado russo, escreveu brilhantemente em inglês. Depois de muitos anos morando e dando aulas nos Estados Unidos ainda conservava um tremendo sotaque russo, muito difícil de decifrar. Estou falando de um escritor em língua inglesa dos mais importantes do século XX, e não de um jogador de futebol, que por profissão não tem que saber língua nenhuma. O que esperavam do Joel? Que não falasse? Que ficasse mudo, pedisse um intérprete? Ele não pode fazer isso. O forte do Joel, como grande representante de uma geração de boleiros que está desaparecendo, sempre foi o papo, a manha, a picardia, com o perdão da palavra. Joel ganha seus jogadores na conversa e com seu jeito paternal e amigo. Como poderia fazer isso calado? Faz muito bem de ir em frente com seu inglês. E parece que está se comunicando muito bem com seus jogadores, o Brasil que o diga na vitória suada no fim do jogo por 1 a 0. Joel pode até ser demitido. Está na moda demitir treinadores sem motivo aparente. Mas não será por causa do seu inglês. Muito menos lhe causarão problemas essas piadas que correm por aí. Joel tem sobrevivido às piores condições com aquela cara que parece saída dos anos cinquenta, fala mansa e jeito calmo, num futebol cada vez mais frenético e tecnológico. Quanto ao pessoal das piadas um aviso: cuidado com a língua inglesa. Ela é muito traiçoeira e, quando menos se espera, o feitiço vira conta o feiticeiro.

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