O interino

No clássico de hoje, entra em cena o profissional que fica à sombra e só aparece nas crises

​ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2016 | 03h00

Hoje tem interino no clássico matutino no Pacaembu. No banco do Palmeiras, estará sentado Alberto Valentim, com o desafio de passar pelo São Paulo. E depois... e depois delega a rapadura.

Interino. Palavra curiosa, fininha, que tem ligação com ínterim, entretempo, provisório. Quebra-galho, mandato tampão. Pode ser empregada em qualquer atividade, mas em geral a vemos em uso no futebol. Define o profissional que sai da sombra para assumir time em crise, e por curto período, enquanto se espera a chegada do novo treinador, que vem com projetos ousados, discurso bonito e a ladainha de sempre.

O interino sabe tratar-se de coadjuvante no teatro da bola, com o que esse papel carrega de bom e de ruim. Se, por um lado, não lhe despenca a cobrança – afinal, está ali para segurar o rojão –, também não sobressai em eventual trabalho bem feito. Se não escuta xingamentos de rotina dirigidos ao professor titular, tampouco lhe chegam aplausos rasgados por bons serviços prestados. Volta logo para os bastidores.

Repare como é raro um interino tornar-se efetivo. E, mais raro ainda, permanecer no cargo por muito tempo após a efetivação. Pior se for prata de casa; sempre vai pairar sobre ele a desconfiança geral. Ao menor vacilo, o forçam a entregar o bastão para alguém com mais experiência e cartaz. Não necessariamente mais competente.

Dirigentes têm vergonha de apostar alto num interino. Mesmo que o moço esteja dando conta do recado, comum ouvir-se a ressalva de que “Fulano fica, porque não há pressa na definição de um nome”. A saída padrão para deixar a porta aberta para mudança, se a solução caseira for fiasco. Se, em vez disso, o time se reaprumar, a cartolagem ganha tempo para fechar negociação.

Todo clube tem o próprio interino, aquele funcionário permanente da comissão técnica. Está lá para ajudar o treinador do momento e para apagar os incêndios periódicos. O falecido Carlinhos foi um clássico no Flamengo, assim como hoje em dia Milton Cruz simboliza o personagem. Perdeu-se a conta das vezes em que lhe jogaram as rédeas do São Paulo. Só no ano passado, foram três. Como sabe do desgaste que seria reivindicar o cargo, repassa a bola com satisfação assim que desembarca o novo chefe.

O Santos teve dois casos recentes e famosos de interinos que vieram das equipes de baixo. Em 2013, assumiu Claudinei Oliveira; em 2015, Marcelo Fernandes. Em ambas as situações, os interinos se esforçaram para marcar território e alçar voo. Em vão; Logo foram reconduzidos às tarefas originais.

O Palmeiras também teve episódio marcante. Em 2009, Jorginho Cantinflas largou a garotada para aparar a tormenta após a demissão de Vanderlei Luxemburgo. Esteve no comando por sete partidas, com cinco vitórias, um empate e uma derrota. O time empolgava, a torcida surpreendeu-se, mas... Jorginho recolheu-se quando se estendeu o tapete verde para Muricy Ramalho. Entregou o Palmeiras embalado na corrida pelo título. No final, nem vaga na Libertadores restou.

Valentim topou a parada mais uma vez, como havia acontecido depois da dispensa de Gilson Kleina, Ricardo Gareca e Osvaldo de Oliveira. Em todas as oportunidades, mostrou que entende do riscado, é do ramo. Se tiver paciência, vingará – provavelmente fora do Palmeiras. Falta aos grandes a tradição de investir numa promessa de técnico. Se não têm peito e paciência nem com figuras carimbadas – taí a defenestração de Marcelo Oliveira pra confirmar –, imagina com principiantes?

A missão de Valentim é recolocar o Palestra no rumo certo, nem tanto no Estadual, mas na Libertadores. O jogo de hoje é preparação de terreno para o duelo com o Nacional, na quarta-feira, em Montevidéu. Lá estará em disputa a permanência na competição sul-americana.

Não surpreenderá se Valentim acertar o passo, hoje e no meio da semana. Talento ele tem. Assim aplaina terreno para Cuca (?) e volta para a penumbra. É a sina de interino.

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