O jogo como ele é

Boleiros

O Estadao de S.Paulo

04 de outubro de 2007 | 00h00

Semana passada, depois de muito tempo longe dos campos, fui ao Morumbi para assistir São Paulo e Boca. Vi o jogo das numeradas inferiores, bem próximo da linha do gramado. Acho que era o único lugar dentro do estádio que ainda não conhecia - a antiga geral. Gosto mesmo é das arquibancadas, lugar que sempre freqüentei, principalmente durante a minha adolescência. A visão que se tem de lá é excelente para acompanhar o desenho do movimento dos jogadores. É da arquibancada que se pode fazer a melhor análise tática. Pelo menos é o que suponho, pois não sou entendedor o suficiente para compreender o jogo dessa maneira.O meu olho é tosco e primitivo como o de qualquer torcedor. Mas lá de cima se enxerga tudo. É o oposto da televisão, que se por um lado tem o preciosismo de um tira-teima, o olhar detalhado de um replay, por outro lado é cega de um olho. A televisão não é só burra, ela é caolha! Depois da arquibancada, o melhor lugar é a faixa central do anel intermediário. É lá que ficam as cadeiras cativas. Dali a visão também é espetacular, muito próxima do campo, num ângulo que permite enxergar a todas as partes, sem muita diferença ou distorção. Além de ser coberta, o que é bem confortável nos dias de chuva.A desvantagem em relação à arquibancada é justamente a falta da torcida. Não que não haja gente para torcer, pelo contrário, lá existe sempre um grupo que marca presença, mas é um tipo de torcedor que é mais individualista, mais opinativo, mais crítico e, em geral, mais chato. Na arquibancada há sempre uma espécie de euforia permanente, que me parece ser uma atitude mais adequada e incentivadora. Mas isso é apenas o meu ponto de vista.O fato é que na quarta-feira passada vi o jogo da antiga geral. Amigos, é outro espetáculo! A visão é ruim, parcial, muito prejudicada por ser muito rente ao gramado. Não se consegue desvendar muito bem o que se passa no lado oposto do campo. Mas, que loucura é poder ouvir os gritos e ver de tão perto a verdadeira guerra que é travada pelos jogadores. A sensação é de que eles estão lutando do jardim do seu quintal.É bem provável que a acirrada disputa que beira a hostilidade que é sempre a marca de um confronto entre brasileiros e argentinos tenha intensificado essa minha percepção. Vi os cravos das chuteiras levantando nacos enormes de grama. Ouvi o barulho seco e agudo dos chutes, ouvi os gritos nervosos dos atletas pedindo a bola ou chegando para uma dividida. Selvagem! Estava tão perto do campo, separado do gramado apenas pelo fosso e pela pista de atletismo que tive ímpetos de pular lá pra dentro. Me imaginei saltando a pequena murada e correndo para dentro das quatro linhas, e num arroubo delirante, pensei em eu mesmo fazer o gol que demorava a sair.Evidentemente, tal insensatez não durou mais do que alguns segundos, tempo suficiente para que eu recobrasse a consciência e me recolocasse na minha simples condição de mortal. Jogadores em ação dentro do campo são como super-heróis de história em quadrinho. Usam meiões e chuteiras, que são como capas voadoras. Têm poderes que ultrapassam a nossa restrita condição terrena e coloquial.A verdade é que vi que o jogo, dentro do campo, não se parece em nada com aquele que nós vemos pela TV, ouvimos pelo radio, compramos pelo pay-per-view. O jogo é uma batalha que se dá no ringue delimitado pelas quatro linhas e que somente aqueles que lá estão sabem da extensão de suas dificuldades e perigos. Às vezes, sinto que tudo que é dito sobre o futebol não vai além de uma especulação, é quase mentira. Só quem está lá dentro entende o jogo como ele é. E ponto.

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