O jogo da montanha-russa

Observador do futebol há tantos anos, eu já não devia me surpreender com coisa nenhuma. Mas me surpreendo. Falo, amigos, dessa vocação de montanha-russa que caracteriza o nosso esporte tão querido. Um sobe e desce sem cessar. Hoje o clube está por cima. Amanhã está por baixo. Vejam só caso do Corinthians.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2014 | 02h05

Quem diria que o clube do Parque São Jorge, que teve seu ano esplendoroso em 2012, fosse começar 2014 nessa draga sem fim. Bem, domingo pelo menos conseguiu empatar e deter a trajetória de derrotas. Empatou. Até jogou melhor que o adversário no segundo tempo. Mas parece que não sabia ganhar.

Por que o Corinthians está tão mal? Francamente não sei. Quando um clube sofre um desmanche em regra, com a venda dos seus melhores valores e sem a chegada de substitutos à altura, fica fácil explicar. Mas não foi o que houve. O elenco era basicamente o mesmo. E a má campanha de 2013 acabou por derrubar Tite, possivelmente o treinador mais importante da história do Alvinegro. Pelo menos, foi aquele que o levou aos títulos da Libertadores e do Mundial de Clubes. Um feito e tanto. Isso não o vacinou contra a queda e trouxeram em seu lugar Mano Menezes, defenestrado da seleção.

Ninguém imaginava tanta turbulência. Afinal, Mano é velho conhecido do Corinthians. Mas não há sossego quando as vitórias não vêm. E a goleada sofrida diante do outro alvinegro paulista, o da Vila, azedou os humores da torcida. Que (parte dela, diga-se) manifestou-se da maneira mais idiota possível, invadindo dependências do clube e ameaçando jogadores. Não pode haver frase mais boçal do que essa - ou joga por amor ou joga por terror. Porque por terror ninguém joga. Apenas adiciona-se um grau a mais de instabilidade em um grupo já fragilizado.

O fato é que a indesejada presença dessa facção de torcedores apenas ajudou a entornar um caldo já derramado pela metade. O time não estava rendendo, não conseguia vencer. Perdera até mesmo a força da defesa, sua principal característica, e passara a tomar gols. O ataque continuava com a inapetência de sempre. Talvez agravada. Sua principal contratação não funcionava. E não funcionou mesmo. Tanto assim que Pato foi trocado por Jadson, uma decisão polêmica da diretoria.

Enfim, o que houve com o Corinthians senão uma séria fadiga de material, aquela força indefinível e invisível, que vai comendo os mecanismos por dentro, minando-lhes a força e a eficácia? Desgaste, que acontece em todas as relações humanas, até mesmo nas afetivas, e que no futebol se expressa de maneira dramática. O grupo é o mesmo, os desafios idênticos e, no entanto, algo começa a girar em falso. Já vimos isso acontecer várias vezes, e sempre sem maiores explicações de ordem racional. O futebol tem razões que a própria razão desconhece, se me permitem adaptar uma frase famosa.

Outro mistério: por que um jogador não rende o que dele se espera? Refiro-me ao Pato, naturalmente. O boleiro chegou da Europa com a aura do craque - palavra, aliás, que usamos a torto e a direito, com muita leviandade. Todos esperamos que o Pato, vindo das Oropas, fosse deitar e rolar no fraco futebol interno do Brasil. Nada. Nadinha mesmo. Sua passagem pelo Corinthians foi tímida, nula, pífia. Mas será que era para esperar muito mais?, me pergunto. O garoto surgiu como um foguete no Internacional. Fez uma partida de arrasar contra o Palmeiras e logo foi vendido para a Europa, sem disputar um Grenal. Lá badalou muito, namorou a filha do capo Berlusconi e acabou voltando para o Brasil. Foi apenas um fogo de artifício, que brilhou rapidamente e se extinguiu?

Sua transferência para o São Paulo será a chance de mostrar quem é. Se começar a comer a bola, sempre poderá dizer que não se adaptou ao Parque São Jorge, que aquele não era o seu ambiente, etc. E poderá dar a volta por cima em companhia de outro que também foi grande promessa e até agora não repetiu as suas primeiras atuações. Refiro-me, claro, a Paulo Henrique Ganso.

De Pato a Ganso, podem formar no São Paulo uma dupla memorável. Pelo menos na teoria. Na prática, são outros quinhentos.

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