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O jogo de Dilma

A percepção do futebol pelo torcedor se dá pelo clube, não pela seleção. O legado da Copa do Mundo não será o título do time de Felipão. Até a vitória possui prazo de validade. A sensação de mudança, de melhora, será verdadeira apenas se a volta aos estádios, a volta à rotina do time de coração for diferente, mais prazerosa do que era antes.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2014 | 02h04

Não é difícil perceber que no dia 16 de julho, quando o Brasileirão for reiniciado, três dias depois da final no Maracanã, a Fifa estará a caminho de casa levando todo o glamour e a organização da Copa para sua sede na Suíça. A entidade, enfim, poderá colocar a boca no trombone e expor todos os problemas de relacionamento com o Brasil, enquanto contabiliza o maior lucro de sua história.

Com o preço dos ingressos ainda em descompasso com a realidade do produto futebol, aqui o torcedor será quase que induzido a avaliar que para ele, na prática, a competição não significou grande coisa. Seu clube, afinal, continuará endividado e a qualidade do jogo permanecerá sofrível, presenciada, salvo exceções, por algumas testemunhas.

Esse foi o tema do jantar de dez jornalistas com a presidente Dilma Rousseff, semana passada. Confesso que meu objetivo, claro desde o início da conversa, era fazê-la perceber que quem se preocupa com legado precisa trabalhar pela reconstrução do futebol no País, não pela seleção, responsável por transformar a CBF na entidade futebolística mais rentável do Brasil.

"Como mudar, uma nova legislação?", perguntou a presidente. Sabemos, todos, que o futebol tem magia suficiente para desmontar o Fla-Flu político e misturar legendas e ideologias. Situação e oposição costumam se embaralhar no Congresso para defender o poder reacionário dominante no esporte.

Talvez, para começar, um pouco de governo resolva. Nos países em que o estado deixou de cumprir o seu papel regulatório, o futebol foi abandonado, permitindo, inclusive, a sua absorção pelo crime organizado.

Quem acompanha esta coluna conhece o meu pensamento sobre o futebol. Exatamente o que você lê aqui foi exposto à presidente em mais ou menos três horas de conversa. Em alguns momentos, é verdade, quase que em tom de apelo.

Dilma também ficou sabendo que, após os estaduais, mais de 400 times encerraram suas atividades por obra do calendário dos cartolas, tipo Marin e afins. Cerca de 10 mil jogadores foram para a rua. Desemprego em massa que não seria tolerado por uma categoria organizada, como a dos metalúrgicos, por exemplo. O esporte, porém, o tolera. Normal.

A indústria do futebol no Brasil é incompatível com o tamanho da nossa economia. PIBs menores levam nossos jogadores como se fossem commodities enquanto apenas lamentamos. E assim evoluíram jantar e conversa com uma chefe de governo atenta aos fatos.

Agora a presidente sabe que os estádios representam apenas uma parte do processo de mudança do futebol, sabe que a tão sonhada casa corintiana, inaugurada ontem em meio às obras, precisará de conteúdo, de jogos de verdade para vingar.

E que a preocupação política com o legado, legítima, dependerá da refundação do futebol no País. Diferentemente do governo, a cartolagem não se preocupa com sua imagem, não depende dela para seus projetos de poder. Essa turma que aí está continuará a quebrar clubes e a pedir perdão das dívidas.

Tomara que a presidente tenha percebido que não é assim tão difícil mudar, e que o estado precisa cumprir o seu papel. As articulações no Congresso são importantes, porém não mais do que a tardia e necessária decisão dos clubes de profissionalizar a gestão.

E para isso o governo tem poder, tem o que negociar. Pode criar normas para conduzi-los a uma nova etapa, que os faça desgrudar do atraso. Continuarei a torcer e a esperar pelas mudanças, como tenho feito ao longo dos últimos 35 anos. Agora é a hora, presidente!

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