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O jogo do segundo tempo

Uma das características marcantes do futebol no Brasil é o desrespeito aos profissionais que nele trabalham. De jogadores a treinadores, todos são descartáveis. Nem mesmo o comandante com os mais desejados títulos da história corintiana escapa dessa situação.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2013 | 02h08

Tite viu sua conduta, até então messiânica e competente, questionada como se fosse o único responsável pela derrocada técnica de todo o grupo. As substituições, que antes serviam para despertar os jogadores do sono profundo, pararam de funcionar quando ficou impossível diferenciá-los tecnicamente.

Não existe um único manual para construir o futebol e a confiança que levaram o Corinthians à conquista do Brasileiro, da Libertadores e do Mundial. Porém, quando os objetivos são alcançados, é necessário regar todos os dias aquela sementinha plantada nos treinamentos.

A dúvida, agora, é se esse modelo de rendimento está esgotado ou ainda pode ser reconstruído. Se for necessário recuperá-lo, quem garante que precisa começar pela troca do treinador? O quanto ele é responsável pela desconexão de Alexandre Pato do futebol?

O empate diante do Cruzeiro apresentou dois Corinthians bem diferentes. No primeiro tempo o time tratou de incentivar o líder do campeonato a jogar como favorito. Não fosse o goleiro Cássio, o mundo teria acabado em apenas 45 minutos. Com Guerrero suspenso e Pato no banco, Tite tentou reproduzir um pouco daquilo que deu certo na Libertadores, um quarteto no meio de campo. Sem um jogador de referência na área, é preciso ter muita mobilidade, funcionamento perfeito, trocar passes até que alguém se apresente para finalizar.

Entrincheirado no meio de campo, o Corinthians viu o Cruzeiro jogar. Viu como a movimentação constante de William, Ricardo Goulart e Éverton Ribeiro criou uma série de chances de gol, mesmo diante de Ralf e Maldonado.

Do jeito que estava, cedo ou tarde o barco afundaria. Era preciso reagir. Na segunda etapa, Emerson foi definido como primeiro atacante. E assim o jogo de meio de campo passou a ter um sentido, com os laterais Igor e Edenílson nos corredores para o ataque. Enfim surgiu um novo velho Corinthians, ajudado, é verdade, por uma substituição cruzeirense. Com Júlio Batista na vaga do discreto Borges, Ricardo Goulart foi transformado em centroavante, e levou com ele toda a movimentação do trio mineiro que quase enfartou o goleiro Cássio.

Bem trabalhado, tática e emocionalmente, o segundo tempo corintiano pode representar um sinal para espantar a má fase contagiosa estabelecida no elenco de Tite.

Criminoso. O calendário do futebol anunciado pela CBF é um tributo à loucura. Você conhece o perfil dos dirigentes, sabe o que vai acontecer, mas no fundo sempre tem uma pontinha de esperança, acredita que o bom senso possa prevalecer um dia. Não foi desta vez, 2014 vai ser de doer.

Entre o fim do atual Campeonato Brasileiro e o início dos estaduais sobraram apenas 33 dias para férias e treinamentos. O descanso dos jogadores não é uma mera questão trabalhista, como muitos fazem questão de apontar.

Para termos futebol com qualidade, é preciso respeitar alguns procedimentos cientificamente comprovados, como as férias e o santo período de treinamentos. Infelizmente, os clubes são frágeis e subservientes.

A Fifa, como sempre, não sabe de nada, pois só se interessa pelo Mundial, não se importa com o criminoso conjunto de decisões de suas federações filiadas. E o Ministério do Esporte, que pelo menos poderia anunciar o desconforto diante de tamanho absurdo, não se manifesta.

Na época mais quente do ano, jogadores mal preparados e expostos ao calor serão cobrados como se tudo isso fosse normal. O calendário de 2014 será responsável por inúmeras lesões e futebol de péssima qualidade. É a CBF em busca de um cadáver.

Abandonados por seus clubes, a única saída para impedir esse absurdo é uma ação dos jogadores, que não demorará a acontecer.

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