O jogo no Japão

Mais uma vez o Brasil inteiro está torcendo para o Santos. Como no passado contra o Milan todos os torcedores espalhados pelo país vão se sentir um pouco representados pelo Santos. O time da Vila é a única equipe brasileira que paira acima das rivalidades. Todos os clubes brasileiros que disputam competições internacionais importantes têm grande contingente de torcedores contra.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h04

O Santos chegou tarde no futebol paulista quando as rivalidades mortais já estavam consolidadas, e quando chegou veio com tal arte e encantamento que foi impossível odiá-lo. Nem os corintianos mais fanáticos que sofreram por longos anos em suas mãos (ou será pés?) conseguiram disfarçar a enorme admiração que aquele time de Pelé suscitava. Em outras circunstâncias talvez a falta de inimigos revelasse apenas menos grandeza, pois, via de regra, quem é grande é temido e, por consequência, odiado. Isso não se aplica ao Santos. Não é odiado por ser pequeno, mas por ser ainda maior. É possível que quando essa equipe entra em campo, sobretudo quando enfrenta adversários estrangeiros, nós brasileiros reconhecemos nela a essência de nosso futebol.

O Santos no auge é tudo o que desejamos que o mundo veja. É possível que sejam apenas reminiscências de 1958, quando um jovem jogador do Santos empolgou e surpreendeu perplexos europeus. Num certo sentido esperamos sempre a repetição daqueles deliciosos momentos.

O Santos de hoje apresenta outra vez um jogador capaz de surpreender. Não é possível nem prudente fazer comparações, mas pelo que já mostrou, pelo que já fez em alguns jogos, é possível sonhar. Faz tempo que o Brasil não apresenta ao mundo o que os italianos chamam de fantasista. Um grande improvisador, alguém que pode fazer algo diferente e protagonizar um lance nunca visto. É claro que há outros grandes jogadores, Ganso por exemplo, mas Neymar é o nosso fantasista, o acontecimento diferente que oferecemos ao mundo.

O Santos vai enfrentar não uma equipe da Catalunha, mas uma verdadeira seleção. O Santos vai enfrentar espanhóis, argentinos, brasileiros além de representantes de México, Chile, Holanda e França. Com todo esse poderio, com toda a empolgação da mídia, inclusive a brasileira, me atrevo a pensar, talvez eu seja um dos poucos, que o Santos também mete medo neles.

Apesar de ver inexplicavelmente ressurgir no país, quando se trata de futebol, aquilo que Nelson Rodrigues chamava de complexo de vira-lata, ainda acredito na mística do futebol brasileiro. Do verdadeiro, do Santos, que de vez em quando reaparece no palco internacional trazendo consigo sua história. Longe daqueles tempos de precárias comunicações, hoje o mundo está cansado de ver Neymar. Devem ter visto e revisto as jogadas que fez e estão cansados de imaginar as que pode fazer.

Tenho certeza que os espanhóis acreditam mais no Santos e levam o Santos muito mais a sério que muita gente aqui no Brasil. Esse clube que não tem inimigos, mas admiradores sabe o que representa. E, peço desculpas a todos os outros, mas nenhum infunde tanto respeito lá fora como o Santos. Aconteça o que acontecer.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.