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Antero Greco
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O judas da hora

Multidões costumam ser impiedosas, manipuláveis e inflamáveis. Um estalar de dedos basta para atiçar a ira coletiva e provocar tragédias. Quem estuda a psicologia dos linchamentos sabe bem como funciona o gatilho. E os que creem nos relatos do Evangelho recordam, nesta Sexta-feira da Paixão, o clamor popular que empurrou Cristo para a morte 2 mil anos atrás.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2015 | 02h03

No futebol, crucificações morais ocorrem a todo momento. Episódio rumoroso ocorreu anteontem, no Beira-Rio. A turba espumou de raiva com a atitude de Fabrício, que teve noite de fúria durante o jogo com o Ypiranga pelo Estadual. O lateral do Inter perdeu as estribeiras com as vaias que vinham da arquibancada, esqueceu da bola, fez gestos para a plateia, tomou cartão vermelho, jogou a camisa no chão e, a caminho do vestiário, avisou que não atuaria mais pelo clube.

Prato cheio e fumegante para apreciadores de escândalo, uma das delícias inconfessáveis do dia a dia. Se bate-boca no vizinho ao lado chama a atenção, aguça a curiosidade e faz as pessoas apurarem o ouvido, para não escapar uma frase do sururu, imagina como rende assunto quando o chilique vem de personagem conhecido. Fabrício ofereceu a cabeça a prêmio de graça.

O destempero foi feio, não há como negar. Barraco e tanto, talvez difícil de contornar e que leve à ruptura entre atleta e agremiação. O desfecho lógico indica esse caminho, que a diretoria em princípio apontará após a Páscoa.

Mas, que tal aproveitar a influência de período tão apropriado para reflexões, para nos colocarmos algumas perguntas a respeito do incidente? Uma tentativa de fugir ao lugar-comum e fácil da repulsa por antecipação. O discurso da condenação não requer uso do cérebro, só do fígado.

Em primeiro lugar, o que leva alguém a sair do prumo? Sabemos o que se passa na cabeça de um ser humano? Quantas não foram as ocasiões em que nós mesmos reagimos de maneira desgovernada num episódio banal? Quem nunca correu atrás de um carro após tomar uma fechada? Quem não brigou em casa por ninharia? Quem não chutou o balde como o chefe ou o patrão por causa de uma repreensão? Enfim, quem nunca deu vexame na vida? Para, em seguida, perceber a besteira?

E quantas vezes não se espera perdão, depois de uma bobeira? Se foi concedido ou não, é outra conversa. Você certamente conhece histórias de relacionamentos e carreiras truncados por atitudes bestas. Ao longo da vida, os homens colecionam bolas fora. Não sejamos fariseus de transferirmos falhas e pecados só para os outros. Uma espiada dentro de nós é de bom tom.

Há também a tendência de considerar "pessoa pública" alvo natural e justo para todo tipo de esconjuro. Jogam-se 50 ou mais tons de insultos sem nenhuma cerimônia, e o outro que aguente o tranco. Num belo dia, ocorre a reação, para espanto e comoção geral.

E no ato vem a sentença irreversível, como no caso de Fabrício. Não foi bonito o que fez. Ok. Mas tomara não seja o judas da hora, a ser malhado em sábado de aleluia. Com a devoção e o respeito, pego emprestado desafio do Cristo. "Atire a primeira pedra quem nunca pecou."

Feliz Páscoa.

Onde vai parar? O Corinthians acumula vitórias com autoridade, independentemente de adversários, sejam Palmeiras ou São Paulo, Once Caldas ou San Lorenzo. A surra sobre o Danubio (4 a 0), na quarta, comprovou o óbvio: a equipe dirigida por Tite tem fôlego para ir longe na Libertadores. Está equilibrada, serena e consciente do que deseja. Nem sempre joga bonito, mas é osso duro para os rivais roerem. Todos tentam, a maioria não consegue.

Onde vai parar? 2. O São Paulo balança mais do que avião em área de turbulência. A falta de força para ao menos incomodar, após levar o gol do San Lorenzo, levanta dúvidas sobre o poder de recuperação. Parece que o grupo de Muricy abandonou a alma; vai reencontrá-la logo? Amém

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