O lance do doping

Um dia que começou triste por conta do adeus ao grande Félix, goleiro que integrou aquele que, para mim, foi o maior time de futebol de todos os tempos - a seleção de 1970 -, ficou ainda mais triste com a notícia da confirmação de doping do até ontem legendário e espetacular Lance Armstrong.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2012 | 03h06

Eu já narrei esse episódio, mas, em vista da derrocada moral do ciclista norte-americano, vale a pena resgatá-lo. É a história da mais rara e valorosa medalha da história olímpica, que não foi cunhada em ouro, mas a partir de um singelo parafuso. Sua história começou numa fria tarde austríaca de 1964, em Innsbruck, quando era disputada a prova de duplas no bobsled - espécie de trenó extremamente veloz, que desliza numa canaleta de gelo - pelos Jogos Olímpicos de Inverno. A dupla britânica, liderada por Tony Nash, tinha completado a primeira descida e ocupava a segunda colocação na competição. Eles se preparavam para a segunda e decisiva descida quando fizeram uma descoberta devastadora: o parafuso que prendia o eixo traseiro de seu trenó havia rachado, o que os deixaria irremediavelmente fora da disputa.

No sopé da montanha gelada, o italiano Eugenio Monti, cuja dupla ocupava a primeira posição na prova, tomou conhecimento da desgraça britânica. Sem hesitar, o italiano removeu o parafuso do eixo traseiro de seu trenó e ordenou que alguém subisse a montanha para entregá-lo aos adversários. Os britânicos consertaram o trenó, fizeram uma brilhante descida e ganharam a medalha de ouro. Quando perguntado sobre seu gesto, Monti evitou qualquer comoção: "Nash não ganhou porque eu lhe dei um parafuso. Ganhou porque foi o melhor condutor". Monti perdeu aquela medalha de ouro, mas, anos mais tarde, foi o primeiro atleta a receber a medalha De Coubertin, concedida aos que se destacam pela profunda compreensão do ideal olímpico. Entretanto, nem mesmo essa condecoração valeu tanto quanto o parafuso sujo de graxa que Tony Nash fez chegar às suas mãos, com uma emocionada mensagem de agradecimento.

Num mundo onde halterofilistas ingerem testosterona de animais selvagens, nadadoras aparecem da noite para o dia com físico mais desenvolvido do que o de muitos nadadores, em que uma ex-campeã de atletismo aparece morta com pouco mais de 40 anos, em que corredores chegam a trocar todo o sangue do corpo para disfarçar o doping e em que inúmeros atletas (brasileiros, inclusive) são pegos em testes de controle e colocam a culpa numa pomada de depilação, num colírio que usaram inadvertidamente ou em algum obscuro remedinho para emagrecer, é triste constatar o quanto o espírito olímpico vem sendo vilipendiado.

Este cronista, que tantas colunas escreveu para exaltar o espírito do ciclista - um atleta que o mundo venerou como exemplo supremo de caráter e força de vontade -, está se sentindo traído. Eugenio Monti teria muita vergonha de Lance Armstrong. É o que o mundo esportivo está sentindo agora. Mas restou ao menos uma boa notícia num dia de notícias devastadoras: depois do lance de Armstrong, os muitos atletas limpos que ainda existem no mundo terão mais motivos para acreditar que a impunidade dos fraudadores de resultados poderá, um dia, chegar ao fim.

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