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O médico e o monstro

Na minha vida já topei com jogadores meio loucos. Em geral simpatizo com eles. São diferentes, surpreendem com a irreverência, dão sempre o que falar com suas atitudes e, principalmente, em geral jogam muito.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2015 | 02h02

Há uma infinidade de exemplos no Brasil desse craque rebelde, que atua contra as normas, que não obedece a não ser seus impulsos nem sempre sensatos. São quase uma instituição brasileira, e todo torcedor tem seus loucos prediletos. É difícil esquecê-los. Representam a anarquia da torcida, a irracionalidade das antigas arquibancadas.

Frequentemente são ídolos, cujos nomes são gritados pelo estádio inteiro. Ao mesmo tempo, com a mesma frequência, se indispõe com a própria torcida, criam casos, são acusados de corpo mole. De vez em quando recebem prensas memoráveis das torcidas organizadas, incluindo sopapos e ameaças. No fundo, como disse, são fascinantes e não há como escapar deles. Basta ver as entrevistas.

Os jornalistas correm atrás deles como se fossem a salvação do emprego. E são mesmo, porque únicos a dizer coisas que saem do lugar comum e do esperado. Muitos deles mantêm a atitude depois que terminam a carreira, outros não. Há os que se tornam comentaristas, tão loucos como eram quando jogavam bola e, de novo, isso os eleva do comum dos comentaristas e eles se transformam em verdadeiras personalidades. Outros viram treinadores, +e é até cômico vê-los orientando seus subordinados pedindo calma, prudência e moderação. Mas mesmo nesses últimos a velha rebeldia está sempre presente por baixo da superfície convenientemente nova.

Há, entretanto, uma terceira categoria, e essa me intriga. É o louco que é louco só de vez em quando, ou só em algumas circunstâncias. É um gênero relativamente novo e, que eu me lembre, antes não havia muitos. São boleiros com dupla personalidade, que se equivalem tanto que não permitem saber qual a verdadeira. São jogadores que na frente dos torcedores, em campo, durante as partidas, aprontam os maiores absurdos, têm atitudes disparatadas e depois, nas entrevistas, aparecem sob novo aspecto. São inteligentes, simpáticos, sóbrios, se defendem tão bem que é quase impossível reconhecê-los.

Por mais que se procure não é nada fácil descobrir nesse encantador rapaz que está falando o mesmo desorientado, irresponsável, que tanto prejuízo causou ao time. Mesmo acostumado a ver atores representar eu mesmo fico em dificuldade na presença desse tipo de personagem. Tento desvendar um fingimento, tento captar uma falha na interpretação. E nada. Parecem melhores atores do que os melhores com que já trabalhei. Mas serão mesmo só atores? Será que simplesmente não são duas pessoas? Uma, Mr. Hyde, quando estão uniformizados, nos vestiários, no meio dos companheiros e do treinador , ou no campo jogando bola. Outra, Dr. Jekyll, vestidos em civis, diante de um microfone e de jornalistas experientes. O médico e o monstro, Robert Louis Stevenson. Por outro lado, às vezes penso que isso, essa dupla personalidade, talvez seja exigência do novo futebol, no qual o jogador faz discursos para atingir determinados fins profissionais e atingir determinados dirigentes. Talvez o eterno combate entre dirigentes e jogadores tenha atingido um estágio mais refinado, e o jogador não é mais a parte inteiramente fraca. Mas fico em dúvida.

Esta semana vi uma entrevista de conhecido e notório "louco", jogador de quem é quase impossível gostar e mesmo compreender. E dei de cara com o mesmo fenômeno. Diante de mim estava alguém que de louco não tinha nada. A pergunta que me fazia era: mas esse indivíduo, tão genuinamente calmo e sereno, é o louco que por anos amaldiçoei? Pensei que estivesse imunizado contra a existência desses estranhos personagens. Pensei que depois de tantos anos não seria fácil me deixar ainda em dúvida. Mas é. Desisto.

 

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