O médico e o monstro

O Corinthians reserva mereceu ganhar e Romarinho teve estreia memorável, ao marcar os dois gols que consolidaram a virada e o placar de 2 a 1. Mas o que chamou a atenção, na tarde de ontem, no Pacaembu, foi o comportamento do Palmeiras, essa versão esportiva de O Médico e o Monstro, clássico da literatura que desde o fim do século 19 fascina o público. A obra do americano Robert Louis Stevenson mostra que todos temos, dentro de nós, um brilhante Dr. Jekill e um tenebroso Mr. Hyde. Há batalha incessante para manter sob controle o lado obscuro da existência.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2012 | 03h03

Luta que atormenta o Palestra dos últimos anos, em constante transição entre a glória e a perdição, o Bem e o Mal. No meio da semana, o que se viu em Barueri foi uma equipe vibrante, ligada, corajosa a despachar o Grêmio e garantir presença na decisão da Copa do Brasil. Chuva, divididas ríspidas, o susto no 1 a 0 para o rival não intimidaram a turma de Felipão. O empate na raça abriu caminho para a redenção de um grupo desacreditado e um técnico criticado.

Astral lá em cima, como raras vezes ocorreu na história atual do clube. Até Valdivia voltou a ser aclamado como El Mago! Afinal, fez o gol que chancelou a classificação, irritou gaúchos e deu depoimento emocionado ao final da partida. Uma ovelha estava resgatada.

Nada melhor para fortalecer a confiança do que uma vitória sobre o Corinthians, que teria efeitos positivos múltiplos: faria bem ao ego, afastaria um pouco os alviverdes da parte mais baixa da classificação no Brasileiro e, por extensão, manteria o eterno rival a segurar a lanterna. Sem contar que poderia botar uma pulga atrás da orelha da nação alvinegra, nos dias que antecedem o jogo com o Boca Juniors pela Libertadores.

O roteiro virtuoso (para os palmeirenses) teve toque de requinte com menos de cinco minutos de bola a rolar, com o gol de Mazinho, o novo talismã, o Messi Black que veio do Oeste, de Itápolis. Para não correr riscos, Felipão achou conveniente mandar a campo praticamente a força máxima, com exceção de Marcos Assunção e Thiago Heleno.

Bastou o Corinthians despertar e ir para cima para que o Dr. Jekill sentisse algo estranho e percebesse o Mr. Hyde pronto a saltar fora e espalhar estripulias. Não deu outra: os erros de passe do Palmeiras se multiplicaram como no milagre bíblico dos pães, a ousadia foi para o espaço, a apatia predominou. Como sobressaiu o futebol eficiente do campeão brasileiro, que mandou uma bola na trave (Liedson) e empatou antes do intervalo, com Romarinho, de letra.

O Palmeiras tentou recompor-se, no segundo tempo, com Maikon Leite e Valdivia, em substituição a Leandro Amaro e Daniel Carvalho. Não adiantou nada. A versão Mr. Hyde prevaleceu, e disso se aproveitou o Corinthians, que virou, e só não marcou mais porque Bruno fez duas boas defesas, Liedson cansou e Douglas outra vez esteve muito distraído.

O dérbi paulista acentuou o caráter combativo do Corinthians, seja A ou B. Tite e sua moçada viajam para a Argentina com o troféu especial que representa bater em adversário quase centenário. E ao Palmeiras fica a dúvida angustiante: contra o Coritiba, logo mais, vai prevalecer o Médico ou o Monstro fará das suas?

Camisa de peso. A Azzurra chegou à Euro-12 em crise, por mais um escândalo de resultados mandrakes. Aos poucos, se reencontrou, ontem despachou a Inglaterra nos pênaltis e vai pegar a Alemanha nas semifinais. Jamais se duvide de quem tem lastro.

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