O mestre e o aluno

Não sou supersticioso. Isola! Toc-toc na madeira (por nada, não; só pra evitar mau olhado). Por via das dúvidas, faço figas para que não dê na veneta de Carpegiani abandonar a intenção de escalar Lucas e Rivaldo como titulares do São Paulo no clássico deste domingo com o Palmeiras. Estou curioso para conferir como se comportam no Morumbi dois talentos de gerações distintas a dividir a responsabilidade na armação da equipe.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Pra quem curte esporte, independentemente das escolhas do coração, sempre empolga a perspectiva de ver atuarem lado a lado jogadores hábeis. O contraste de idades, no caso, é atração adicional. Lucas tem 18 anos, acaba de deixar os cueiros, como se dizia no tempo da vovó, e caminha lépido e faceiro para mostrar futebol de gente grande. Rivaldo, 39 em abril, rodou mundo, e suas pernas arqueadas já entortaram tanto zagueiros de classe como brucutus com escritura de grossura lavrada em cartório. Elas clamam por pantufas no lugar de chuteiras, mas por sua habilidade ainda têm como surpreender os incautos.

Lucas é o aprendiz; Rivaldo, o mestre. Com ambos a postos, o São Paulo sobe alguns pontos no quesito criatividade. Com essa dupla, aumenta a probabilidade de surgirem jogadas de efeito e lances ousados - enfim, de improviso. E como faz falta o inesperado num futebol cada dia mais previsível, dentro de campo (com atletas que se comportam como soldadinhos de chumbo) e fora também(com profissionais a dar declarações robóticas, com meia dúzia de frases feitas). Não tenho dúvida: o jovem aprenderá com o mais velho.

Outro fato que pode estimular Carpegiani a inclinar-se pela experiência com Lucas e Rivaldo - vá lá, mesmo que seja por pouco tempo - foi o descontentamento da diretoria com Casemiro, candidato a xerife do meio-campo. O rapazola voltou do Sul-Americano no Peru cheio de prosa, deitou falação em público e pediu aumento. Pra que cair nessa de abrir o jogo?! Os cartolas ficaram horrorizados com o surto de espontaneidade do jovem e sutilmente recomendaram ao treinador que lhe servisse chá de banco.

A eventual alteração no meio-campo mexe com a distribuição tática do São Paulo. Jean retomaria a função de marcar, junto com Carlinhos Paraíba, enquanto a defesa seria formada por Rhodolfo (caindo pela lateral), Alex Silva, Miranda e Juan. Na frente, Dagoberto e Fernandinho. Na prática, é o que Carpegiani tem de melhor, no principal teste de seu time, ao topar com o vice-líder e sua defesa menos vazada (3 gols). Será prova de fogo também para o Palmeiras, que volta a apostar em Valdivia. E está na hora de El Mago brilhar...

A tarde ainda será de reencontros para Rivaldo. Com Felipão, que não o chamou de volta ao Palestra, mas que o define como o craque da Copa de 2002. E com a torcida do Palmeiras, com quem tem recíproca relação de carinho.

"Se" resolvesse. Sei que "se" não resolve, no futebol e na vida, embora seja nome de um belo poema de Rudyard Kipling e de músicas, uma linda de Djavan e outra um tanto brega, mas delicada, de uma banda de rock chamada Bread, com sucesso fugaz nos anos 1970. Mas fico a imaginar o que teria sido do Corinthians, nos duelos com o Tolima, se (olha ele aí) então já contasse com Liedson no lugar (ou, no máximo, ao lado) de Ronaldo. O ataque alvinegro ficaria mais lépido e eficiente, como está hoje. Porque haveria o contraponto entre dois veteranos em momentos distintos - a leveza do recém-regressado ao Parque São Jorge e a lentidão do Fenômeno recém-aposentado.

Liedson desembarcou de Portugal após o desastre contra os colombianos e não havia como reparar o estrago. O consolo são os gols que tem feito no Paulista. Em cinco partidas, o baiano de 33 anos marcou sete vezes - as duas mais recentes ontem à noite, nos 4 a 0 sobre o Grêmio Prudente. Já está na briga pela liderança da artilharia da competição (por enquanto Elano manda, com 8 gols). Em compensação, seu time dorme em primeiro lugar, com 22 pontos.

A vida tem dessas ironias.

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