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Jerome Miron / USA TODAY Sports
Jerome Miron / USA TODAY Sports

O modelo de TV paga está em declínio. Mas a NFL ainda lucra com ele

Estrutura das negociações permite que os consumidores assistam à maioria dos jogos sem assinar nenhum serviço de streaming

Kevin Draper, The New York Times

24 de março de 2021 | 10h00

Os maiores conglomerados da televisão concordaram coletivamente em gastar mais de US$ 100 bilhões para continuar colocando os jogos da NFL em seus canais de transmissão e televisão a cabo pela próxima década, mas a maneira como eles anunciaram os acordos na quinta-feira não deixou isso muito claro.

A ViacomCBS escreveu no título de seu comunicado à imprensa que havia assinado um acordo “multiplataforma”. A ESPN, no segundo boletim de seu comunicado à imprensa, declarou que viria “mais conteúdo nacional exclusivo da ESPN+”, enquanto a segunda frase do comunicado da Fox apontava que os direitos digitais estavam indo para o Tubi, um serviço de streaming pouco assistido de sua propriedade.

Este é o tamanho da dificuldade de adquirir os direitos de exibição de esportes ao vivo em 2021. Streaming é o presente de filmes e séries de TV e o futuro do esporte, e é no crescimento desse setor que Wall Street aposta. Mas o número de pessoas que pagam por streaming de esportes e as quantias que pagam são superadas pelas dezenas de milhões de lares americanos que ainda gastam US$ 50, US$ 100 ou mesmo US$ 150 por mês em um pacote de televisão.

Os acordos cimentam o status da NFL como a liga esportiva mais rica do mundo e mais uma vez demonstram que sua programação é a pedra angular que impede o desmoronamento total do ecossistema da televisão tradicional. Em 2020, 76 dos 100 programas de televisão mais assistidos foram jogos da NFL.

“Acho que a NFL fez um trabalho espetacular ganhando mais US$ 100 bilhões”, disse John Skipper, presidente-executivo da Meadowlark Media, que negociou com a NFL enquanto dirigia a ESPN. “Acho que eles entenderam que estamos num momento de transição de um mundo de televisão a cabo e aberta para serviços de streaming. Eles entenderam que ainda há bastante dinheiro nesse universo de transmissão de TV paga em declínio”.

Os acordos, que começarão em 2023 e durarão até a temporada de 2033, parecem bastante semelhantes ao último conjunto de acordos de mídia que a NFL assinou no início de 2010. Os jogos de domingo à tarde permanecerão na Fox e CBS, os jogos de domingo à noite continuarão na NBC e os jogos de segunda à noite, na ESPN. A maior diferença é que 15 jogos das noites de quinta-feira serão exibidos apenas no serviço de streaming Prime Video da Amazon.

Embora seja o centro das atenções nos comunicados à imprensa, o streaming está somente no horizonte da NFL. ESPN, CBS e NBC anunciaram que os jogos da NFL vão aparecer em seus serviços de streaming, mas, em quase todos os casos, serão transmissões simultâneas ao que está sendo mostrado em seus canais de televisão. Apenas um único jogo a cada temporada aparecerá exclusivamente nos serviços de streaming da ESPN e da NBC fora dos mercados domésticos das equipes que estão jogando. Nenhum aparecerá nos serviços da CBS ou Fox.

Isso significa que, se você pagar por um pacote de televisão, como mais de 80 milhões de lares americanos ainda o fazem - embora seja uma queda em relação aos mais de 100 milhões de 2011 - e se você pagar pelo Amazon Prime, o que mais de 126 milhões de americanos fazem, você vai continuar a assistir à grande maioria dos jogos da NFL, incluindo o Super Bowl e todos os jogos do playoff, sem pagar por um serviço de streaming.

“Mesmo que o digital esteja crescendo, o ecossistema da TV tradicional ainda é incrivelmente rico, incrivelmente profundo, incrivelmente amplo”, disse Hans Schroeder, diretor de operações da NFL.

Nos anos 2000, quando as ligas esportivas começaram a fechar acordos de mídia que colocavam jogos na televisão a cabo, as partidas da NFL continuaram quase inteiramente na televisão aberta. Na década de 2020, enquanto a maioria dos jogos está na TV a cabo e as ligas esportivas começam a assinar acordos de mídia que colocam jogos em serviços de streaming, os jogos da NFL ainda permanecem quase inteiramente na televisão aberta.

“A chave é proteger os aspectos multiplataforma deste acordo”, disse Sean McManus, presidente da CBS Sports. “Assim, se o streaming for o elemento de crescimento nº 1 no negócio, teremos esses direitos e também os direitos de transmissão na TV”.

As empresas de mídia estabelecidas pagaram caro para manter esses direitos de transmissão enquanto construíam lentamente seus serviços de streaming.

As emissoras de televisão aberta, como as afiliadas à ABC, CBS, NBC e Fox, recebem dinheiro por meio de taxas de consentimento de retransmissão de provedores de televisão paga, como Comcast ou Charter. Os provedores de televisão paga devem obter consentimento para retransmitir os sinais desses canais de transmissão, pelos quais geralmente pagam uma taxa lucrativa, e ter jogos da NFL dará a essas estações uma força extra para pedir mais dinheiro.

Mas o fato de muitos jogos da NFL estarem disponíveis em serviços de streaming pode sair pela culatra para as estações de transmissão. Os consumidores poderiam ter um incentivo para se livrar de seus caros pacotes de televisão paga, adotando alternativas de streaming mais baratas. Se muitos fizerem essa mudança rápido demais - pagando apenas US$ 5 por mês pelo Peacock, serviço de streaming da NBCUniversal, em vez de pagar pela NBC, USA, Bravo e outros canais da NBCUniversal por meio de um pacote de TV paga, por exemplo - os serviços de streaming mais baratos não gerarão receita suficiente para ajudar suas empresas controladoras a pagar bilhões de dólares à NFL a cada ano.

CBS, Fox e NBC vão pagar à NFL mais de US$ 2 bilhões por ano, em média, cerca do dobro do que pagavam sob os acordos antigos, segundo disseram quatro pessoas familiarizadas com os acordos, as quais pediram anonimato porque não foram autorizadas pela NFL a falar publicamente sobre os negócios. A ESPN pagará cerca de US$ 2,7 bilhões por ano, em média, ante os antigos US$ 2 bilhões.

Mas, embora a ESPN pague mais do que seus concorrentes, o aumento de 35% no preço é muito menor, proporcionalmente, do que o aumento de cerca de 100% da CBS, Fox e NBC. A ESPN também receberá muito mais por esse dinheiro. A emissora entrará no rodízio do Super Bowl, com seu canal irmão ABC - ambas são propriedade da Walt Disney Co. - exibindo o Super Bowl a cada quatro anos, começando com o jogo de 2027. A ESPN também exibirá 23 jogos da temporada regular a cada ano, contra 17 nos anos anteriores, adicionando mais jogos de segunda-feira à ABC e uma jornada dupla de sábado na ESPN.

Nos últimos anos, a NFL experimentou vender direitos de streaming para um punhado de empresas digitais, entre elas Amazon, Twitter e Yahoo, enquanto o Facebook e o YouTube assinaram acordos para exibir outros esportes. Mas quase todos os jogos transmitidos foram vistos por apenas uma fração do público normal.

Isso levou a um punhado de explicações concorrentes - como a de que a audiência era pequena porque os jogos também eram exibidos na televisão ou porque as pessoas não queriam assistir a esportes em serviços de streaming. Mas a explicação é, sobretudo, porque nenhum dos gigantes da tecnologia, que pisam em outras esferas da economia sem pensar duas vezes, está disposto a gastar uma quantia significativa de dinheiro para descobrir o que vai acontecer se eventos esportivos realmente populares forem exibidos exclusivamente numa plataforma de streaming.

Exceto a Amazon. A empresa vai pagar uma média de US$ 1 bilhão, de acordo com duas pessoas familiarizadas com os acordos, em cada um dos próximos 10 anos para ser o único lugar para se assistir a 15 jogos de quinta à noite em cada temporada, de longe a maior soma de dinheiro que todas as empresas de tecnologia já pagaram para transmitir esportes. Se a Amazon puder provar que a exibição de jogos de futebol leva a um aumento significativo de assinantes do Amazon Prime, ou beneficia outras linhas de negócios da Amazon, talvez Netflix, Alphabet e Facebook sigam seu exemplo e mergulhem nos esportes. / Tradução de Renato Prelorentzou

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