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Antero Greco
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O mundo é Oruro

Não gosto do discurso de justiceiros. Não defendo preconceitos. Sou contra pena de morte. Acredito na justiça. Mas não tenho estômago de avestruz. Tão logo bati os olhos na capa do Estado de ontem, senti náusea. Abrir o jornal pela manhã e ver um dos sujeitos que até dias atrás estiveram presos em Oruro envolver-se na briga de torcidas em Brasília estraga o dia.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2013 | 02h07

E, ao ler a reportagem do Raphael Ramos fiquei com a sensação de abandono e de que somos uma nação de trouxas. Ou, pelo menos assim nos consideram os que fazem parte de algum tipo de tribo com privilégios e com força que os colocam acima da lei. Para não azedar a quarta-feira, espiei a edição de hoje com antecedência e vi que teve outro nas mesmas condições foi identificado.

Permita-me uma digressão para entender por que somos milhões de otários? Muita gente se entristeceu e se revoltou com a arbitrariedade de autoridades bolivianas ao jogarem no xadrez 12 corintianos, em março, após a morte de Kevin Espada. Os rapazes pagavam pela atitude criminosa assumida pelo menor de idade que milagrosamente conseguiu voltar para o Brasil e se desculpou em entrevista em rede nacional.

Na cruzada para que se fizesse justiça e fossem libertados os infelizes que caíram na ratoeira da Bolívia, políticos, diplomatas, governantes manifestaram inconformismo e apoio aos fiéis. O presidente do Corinthians bufou, inflamou-se em todas as ocasiões em que abordou o assunto. Indignou-se contra o autoritarismo com veemência.

A moçada aos poucos se livrou das condições subumanas em que se dizia encontrar no fétido cárcere e regressou para a segurança do lar e a convivência saudável com parentes e amigos. Felizmente bem, corados, longe de apresentar sinais de debilidade física provocada pela reclusão. Os integrantes da brigada tiveram recepção de heróis, de novos mártires. Bravos guerreiros.

O caso foi arquivado, no Brasil, e todos ficaram em paz. Kevin não poderá fazer nada mesmo; afinal, morto não reclama. A questão corre por conta dos tribunais do vizinho. Se houver condenação, servirá para sossegar consciências sensíveis. O menor não pagará, porque não haverá extradição. Fim de papo? Página virada? Vida que segue?

Fim coisa nenhuma. A história de Oruro continuou no Mané Garrincha e vai prosseguir em qualquer lugar do mundo, enquanto os extremistas da bola se respaldarem em impunidade. A prova? Dois dos coitados soltos das grades estrangeiras estavam na linha de frente dos confrontos de gangues no intervalo de Vasco x Corinthians. Não há imagem de televisão que possa desmentir nem justificar a valentia com que enfrentaram policiais e inimigos cariocas. Nem depoimento emocionado.

É possível alegar que se trata de situações distintas, que houve infeliz coincidência e que a confusão de domingo não anula a inocência no caso da Bolívia. Ok. Mas e a atitude dos combatentes? Não é obra do acaso nem azar estar na hora errada no lugar errado.

Provoca ânsia o roteiro habitual: retenção por algumas horas, depoimento na delegacia, assinatura em termo de responsabilidade e inquéritos que não dão em nada. Ou, no máximo, uma condenação a prestarem serviços comunitários. E via livre para voltarem a espalhar pânico, bancados sabe-se lá como e por quem.

É de espantar como alguém que fica preso cinco meses tem dinheiro para ir para o DF e usar ingresso que custa R$ 160. E hoje, quem sabe?, driblarão proibição da FPF e estarão no Pacaembu para empurrar o time na Copa do Brasil. Vergonha.

TESTES PARA PAULISTAS

Corinthians, Santos e Palmeiras definem hoje futuro na Copa do Brasil. Na teoria, e apenas assim, dá para imaginar vida menos dura para Tite e sua turma. A desvantagem de 1 a 0 diante do Luverdense não é obstáculo intransponível, se bem que vencer virou obrigação. Santistas e palmeirenses largaram com 1 a 0 a favor, e terão de cortar um dobrado contra os embalados Grêmio e Atlético-PR.

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