O mundo endurece o jogo com a China

Pressão por causa da dura ofensiva de Pequim contra os tibetanos e ataques ao dalai-lama não pára de aumentar

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

03 de abril de 2008 | 00h00

A pressão internacional sobre a China em razão do desrespeito aos direitos humanos no país e o tratamento da questão do Tibete aumentou nos últimos dias, com uma sucessão de golpes contra os anfitriões da Olimpíada de 2008 vindos de diferentes partes do mundo. Nos Estados Unidos, parlamentares pediram ao presidente George W. Bush que boicote a cerimônia de abertura dos Jogos, dia 8 de agosto. Na França, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoé, anunciou ontem que haverá protesto oficial durante a passagem da tocha olímpica pela cidade, na segunda-feira. Acesse o canal especial dos JogosOs gestos foram motivados pela reação da China aos protestos de tibetanos no mês passado e à escalada retórica das autoridades de Pequim contra o líder espiritual dalai-lama. A tocha cumpre seu tour de 130 dias por 20 países. Ontem, passou pela cidade de Almaty, no Casaquistão, e o temor de protestos contra a China levou à adoção de medidas rigorosas de segurança, que incluíram a mobilização de 4.500 policiais e a interrupção do tráfego em grande parte da cidade. De lá, a tocha segue para Istambul, Turquia.A carta endereçada a Bush é assinada por 14 deputados democratas e 1 republicano. ''Seria claramente imprópria a sua presença nos Jogos Olímpicos na China, dada a natureza cada vez mais repressiva do governo daquele país'', diz o texto.Na terça-feira, a chanceler alemã, Angela Merkel, foi a primeira chefe de Estado a anunciar que não participará da abertura dos Jogos, decisão que também poderá ser adotada pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy. Na França, a pressão contra a China é grande. Ontem, ao divulgar o trajeto da tocha por Paris, o prefeito Delanoé informou que vai ser colocada em frente à prefeitura uma faixa com a seguinte frase: ''Paris defende os direitos humanos para todo o mundo.''Em San Francisco (EUA) também ocorrerão protestos durante a passagem da tocha. As autoridades informaram ontem que haverá espaços destinados a manifestantes em vários pontos. O prefeito da cidade fez apelo para que os atletas que estarão carregando símbolo olímpico sejam preservados.Já o pré-candidato democrata à presidência dos EUA Barack Obama se disse ''dividido'''' em relação a um eventual boicote à Olimpíada. ''Por um lado, creio que o que ocorreu no Tibete e o apoio da China ao governo sudanês em Darfur são problemas verdadeiros'''', disse. ''Por outro, resisto a politizar os Jogos, porque estão concebidos em parte para unir o mundo.''A Anistia Internacional também bate forte nos chineses. Divulgou documento no qual avalia que a realização da Olimpíada não melhorou a situação dos direitos humanos na China. Pelo contrário. ''Havia a esperança de que os Jogos atuariam como um catalisador para reformas, mas muito da atual onda de repressão contra ativistas e jornalistas está ocorrendo não apesar de, mas por causa da Olimpíada'', declarou a Anistia. ''Qual o legado de direitos humanos da Olimpíada de Pequim?''A entidade sustenta que a reação da China aos protestos no Tibete violam os direitos humanos. Cerca de 700 pessoas foram presas sob suspeita de participarem das manifestações e a Anistia afirma que correm o risco de sofrer tortura e maus-tratos. O documento diz ainda que a proibição de que jornalistas entrem na região - os que puderam entrar foram vigiados pelas autoridades chinesas e tiveram o trabalho inibido - trai a promessa de Pequim de garantir ''completa liberdade de imprensa'' no período que antecede a Olimpíada.No dia 14 de março, a capital do Tibete foi o palco dos mais violentos protestos contra a China dos últimos 20 anos. As manifestações começaram de forma pacífica no dia 10 de março para marcar o 49º aniversário do fracassado levante de tibetanos que levou ao exílio do dalai-lama em 1959. Os protestos degeneraram em violência no dia 14 e deixaram saldo de 18 civis mortos, segundo as autoridades de Pequim. Tibetanos no exílio sustentam que o número de vítimas no Tibete e em províncias próximas alcança 140 desde o início dos protestos.

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