O nosso craque está de volta

Finalmente ele está voltando. Depois de ter jogado na Europa tantos anos, e com tanto sucesso, ele chega para aqui definitivamente completar a sua carreira.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2011 | 00h00

Estou muito feliz que esse grande campeão do mundo pela nossa seleção brasileira possa ser visto novamente pelos torcedores. E chegou mandando, por cima.

Só que, ao contrário de outros jogadores a que estamos nos acostumando a repatriar, ele manda às claras, sem meias palavras. Vem para ser jogador e presidente do clube, pura e simplesmente. É assim que se faz. Sendo presidente ele manda no time, no técnico, no clube, enfim. Estou me referindo a Rivaldo Ferreira, o grande Rivaldo, maior jogador da seleção na última Copa do Mundo que vencemos, que chega ao Mogi Mirim com tudo. E na chegada revela sua maneira de fazer as coisas: de frente, com clareza, diferente de outros jogadores famosos que estão voltando um atrás do outro.

Porque esses jogadores que chegam depois de carreiras no exterior também vêm para mandar. Só falta eles terem a coragem de Rivaldo e reivindicarem de uma vez a presidência formal dos clubes. Ou alguém tem dúvida de que eles, junto com seus numerosos estafes, são o verdadeiro poder dentro de clubes e entidades? Não confessam em público, porque são politicamente corretos e foram instruídos a sê-lo. Suas entrevistas são cheias de modéstia, de cortesia, parecem jogadores iguais aos outros. Mas suas atitudes na prática demonstram exatamente o contrário. Não obedecem horário, não entram em forma, jogam quando querem, se metem em complicações extra campo, demitem treinadores, etc, etc...

E os presidentes e demais dirigentes, reduzidos a meros subordinados, ainda agradecem satisfeitos por terem o privilégio de terem sido escolhidos pelos astros. Para esses, a volta ao Brasil é um belíssimo negócio. Ganham praticamente o que ganhavam na Europa, sem ter de se submeter às mesmas exigências dos antigos clubes, onde, aliás, eram, em geral, reservas. Todo mundo finge que esses salários estratosféricos são absolutamente normais.

Ontem mesmo este jornal trazia declaração de um dirigente, que luta desesperadamente para contratar um desses grandes astros, feita aos demais atletas do clube reunidos no vestiário: "Ele vem para correr e suar como cada um de vocês."

Não é incrível que essa frase seja dita para adultos, sem que o autor fique nem sequer vermelho? A frase, de resto, já embute a suspeita de que um jogador possa chegar a um clube para jogar, ganhando uma fortuna, sem correr e suar. Nunca em tempo algum do profissionalismo no Brasil alguém precisou fazer um aviso desses. Por isso admiro Rivaldo.

Enquanto os outros mandam escondido ele manda à luz do dia. Se tiver de fazer discurso no vestiário para os atletas, é ele quem faz. Não se esconde atrás de ninguém. É o presidente, como são todos os demais, disfarçadamente.

Pelo velho e bom futebol. Salve Rivaldo, silencioso, verdadeiro, enigmático, crestado pelo sol de Pernambuco como um personagem da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna. Não esperem notícias sociais de Mogi Mirim. Não esperem escândalos ou aventuras estranhas, Os colunistas sociais, aliás, sabem disso muito bem, e suas câmeras jamais estão ligadas em Rivaldo.

Mas, se alguém tiver saudade do velho e bom futebol jogado por craques de verdade, que estão em campo pelo jogo, pelo amor do jogo, ainda há tempo. No Campeonato Paulista que vem aí procurem os jogos do Mogi.

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