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O ônibus corintiano

O placar de uma partida é resultado da complexidade que transborda do futebol. Não pode ser apenas tático, físico ou técnico. Existem muitos outros fatores dentro e fora de campo que interferem no produto.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2014 | 02h03

O Inter finalizou 16 vezes e o Corinthians quatro, teve 62% de posse de bola contra 38% e goleou nos escanteios, 11 a 1. Mas não venceu o jogo. Curiosamente a equipe de Mano Menezes comportou-se no domingo como deveria ter feito na quarta-feira.

A vitória em Porto Alegre foi ótima, apesar de insuficiente para apagar o vexame de Belo Horizonte. Insuficiente porque ainda falta densidade ao futebol do Corinthians, para jogar com e sem a bola, para ser respeitado como grupo capaz de possuí-la quando necessário e de criar danos na defesa inimiga.

Por ironia do futebol, Paolo Guerrero voltou a marcar no início do primeiro tempo, como fizera contra o Atlético Mineiro pela Copa do Brasil. Nos dois confrontos, depois do gol ainda havia toda uma partida para ser entendida e disputada. A virada sofrida no Mineirão e a crise resultante da falta de uma interpretação correta do jogo reanimaram velhos fantasmas corintianos.

O Inter vai lamentar essa derrota por muito tempo, pelas oportunidades desperdiçadas e por ter pela frente uma equipe contundente quando quem precisa propor o jogo é o adversário. O Corinthians esperou, mais uma vez, e se deu bem. Terminou o primeiro tempo com suas duas únicas finalizações a gol carimbadas no placar, vantagem gigantesca quando atua coletivamente.

O time de Abel Braga foi um teste para o sistema defensivo, de ponta a ponta, de Cássio a Guerrero. Desde o pontapé inicial as propostas ficaram claras. Atemorizado pela goleada na Copa do Brasil, o Corinthians ficou exageradamente atrás, com o ônibus estacionado na grande área para defender sua meta.

Escalado na vaga de Malcom, Jadson ajudou a encorpar o meio de campo, preparado para defender em linha, com marcação à inglesa. Da direita para a esquerda, Mano posicionou Petros, Elias, Bruno Henrique e Jadson. Renato Augusto ficou centralizado, entre os marcadores e o iluminado Guerrero.

O objetivo era impedir que o Internacional trabalhasse pelos lados com D'Alessandro e Alan Patrick, além de ter Alex, com seus passes e finalizações, bem vigiado. Com Jadson perto de Renato Augusto, o treinador corintiano imaginava construir mais posse de bola, o primeiro passo para manter o perigo distante de sua área.

Mas com um gol em cada ponta de um enorme primeiro tempo por causa da contusão de Cássio, o Corinthians foi naturalmente espremido contra sua própria meta. A posse de bola jamais superou os 40%. O placar e a pressão do Beira Rio mantiveram a equipe atrás na segunda etapa também. Nilmar diminuiu aos 27 e tornou o final do jogo emocionante.

O resultado pode ajudar a recuperar o Corinthians no Campeonato Brasileiro, mas seus problemas não devem ser apenas distribuídos entre jogadores e comissão técnica. É muito cômodo apontar Mano Menezes como o único e verdadeiro culpado por um futebol que realmente não deslancha.

Campeão brasileiro, sul-americano e mundial, Tite viveu o mesmo processo de desconfiança. Suas conquistas não foram suficientes para oxigenar a análise do torcedor e dos cartolas. Mano é hoje a continuidade daquele processo de fritura que encerrou a etapa mais vitoriosa da história do clube.

Então agora Tite é a solução? Não servia em janeiro e surge como a solução de outubro? O futebol requer um mínimo de coerência. O custo de Mano é outra história, é problema de quem o contratou e da incapacidade de equilibrar receita e despesa. O fracionamento do trabalho é muito pior. A troca de treinador obrigará o Corinthians a recomeçar outra vez. E isso todos sabem que não é bom.

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