Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

O Pan foi uma boa experiência, diz Arthur Zanetti

Ouro em Toronto destaca alto nível da competição

Entrevista com

Arthur Zanetti

Nathalia Garcia, ENVIADA ESPECIAL A TORONTO, O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2015 | 17h00

Especialista nas argolas, Arthur Zanetti completou a sua coleção de medalhas com o ouro nos Jogos Pan-Americanos de Toronto. Em entrevista ao Estado, o atleta fala sobre a subjetividade na avaliação da modalidade, comenta o assédio sobre as atletas do sexo feminino e tenta acabar com o mito de que a ginástica atrapalha no crescimento. Com 1,56 m, diz que a estatura não é um tabu e brinca: “Só demorei um pouquinho para ir na montanha-russa”.

Deixa o Pan com missão cumprida?

O Pan foi uma boa experiência, um treinamento excelente para a equipe masculina e individualmente para os atletas. Nas finais, a gente notou que as notas estavam muito altas e isso mostra que o nível do Pan estava melhor que nos outros anos.

Como será buscar o bicampeonato em todas as competições?

Eu acredito que é muito mais difícil. Se pensarmos no bicampeonato pan-americano, vai ser bem mais complicado porque, se eu competir os próximos Jogos, vou ter 29 anos. Já vai ser uma idade um pouco avançada para a ginástica.

Você acha que o fato de um ginasta ser campeão olímpico ou um atleta da casa influencia na avaliação dos juízes?

Acredito que a ginástica tem isso, não sei se é problema ou vantagem de ser um esporte subjetivo. Cada um tem um jeito de olhar. Todos os árbitros passam por um curso, mas cada um enxerga de uma maneira porque eles não têm o mesmo ângulo de visão. O importante é entrar para fazer o melhor. O nome na competição pesa, mas se você não fizer bem feito com certeza eles vão olhar e vai ter o desconto. Tem que entrar, fazer o seu melhor e são eles que dão a nota que você merece.

É possível manter a humildade depois de tantas conquistas?

Quando alguém fala que sobe à cabeça, não entendo. Não entendo pelo fato de que fui criado por uma família bem regrada. Por que vou ser melhor que o outro? Jamais, nunca me passou pela cabeça. Dentro da área de competição, tenho os mesmos direitos que qualquer outro competidor, sendo primeiro ou último colocado. Lógico que algumas vezes você ganha regalias, mas isso é pelo fruto do trabalho. Não é porque sou campeão olímpico que posso furar fila, tem que respeitar.

Como vê os assédio sobre as atletas mulheres?

Para mulher é muito mais complicado, com certeza. Mesmo em redes sociais, se você comparar uma mulher campeã olímpica e um homem campeão olímpico, a mulher vai ter muito mais seguidores, um assédio maior pelo fato de ela ser mulher. Isso é uma parte que acho que todos têm de tomar cuidado, usar as redes sociais adequadamente. Não só o profissional, tem que usar para divulgar o seu esporte, sua carreira, mas também mostrar os momentos de lazer. Os atletas têm vida pessoal e algumas vezes a gente quer demonstrar isso, mas tem pessoas que não conseguem entender.

Você já teve algum problema com comentários?

Tem muitas pessoas falando coisas boas, praticamente 99%, mas sempre tem um que vai criticar. Teve um dia que vi na minha rede social um comentário assim: ‘Não adianta nada ter resultado no Pan, a gente quer ver ouro na Olimpíada’. Mas sou eu que tenho que querer o ouro, mais ninguém. Tem que tomar cuidado, mas tentar deixar de lado. Tem que ignorar, saber lidar bem com a crítica, vai ter em todos os momentos. 

A baixa estatura reflete na vida fora da ginástica?

Isso não reflete em nada na minha vida, consigo ter minha vida normal.

No início da carreira, você chegou a pensar que não ia mais crescer?

Já. Porque tem esse mito de a ginástica fazer com que a pessoa não cresça. E você pensa: ‘Será que é isso mesmo?’ Aí acaba pegando gosto e vê que não tem nada a ver, deixa de lado e segue seu esporte. Nunca me regrei nada por causa do meu tamanho, só demorei um pouquinho para ir na montanha-russa, mas foi normal depois que atingi o tamanho.

Esse mito inibe a entrada de crianças na ginástica?

Sim, ainda existe essa teoria de alguns pais de ‘não vou colocar minha filha no alto rendimento porque ela não vai crescer’. Mas pode ter certeza que é mentira. O esporte é seletivo, não adianta. No alto rendimento, para a ginástica, o esporte seleciona os mais baixos. No basquete, o cara tem de ser alto. 

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