Roberto Castro/ME
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'O Pan vai nortear o trabalho para 2016', diz George Hilton

Ele se orgulha de dizer mais de 80% dos atletas do País no Canadá recebem bolsa do ministério do Esporte

Entrevista com

George Hilton

Marcio Dolzan, ENVIADO ESPECIAL A TORONTO, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2015 | 07h00

O ministro do Esporte, George Hilton, chegou a Toronto com agenda cheia e otimista em relação ao desempenho dos brasileiros nos Jogos Pan-Americanos. Nesta sexta-feira ele falou com exclusividade ao Estado.

Quais são os compromissos do senhor em Toronto?

Vamos acompanhar a nossa delegação, que é a maior. Só perde para a do Pan do Rio de Janeiro (em 2007), e 80% desses atletas são bolsistas do ministério do Esporte. Ou seja, nós dobramos desde o último Pan-Americano, de Guadalajara. Para nós isso é uma marca impressionante, e a gente quer fazer deste evento aqui de Toronto uma avaliação dos atletas, saber o desempenho deles, porque isso vai nortear a gente para os Jogos do Rio no próximo ano.

 

O senhor pretende ficar em Toronto por quantos dias?

Eu vou (para o Brasil) na segunda-feira à noite. Cheguei ontem (quinta), então serão quatro dias. Vou participar de algumas partidas, mas essencialmente a abertura. Vou conhecer também as instalações dos nossos atletas tanto na Vila do Pan quanto na universidade que adotou eles aqui, e a Casa Brasil, que também é um abrigo dos nossos atletas.

 

O QG brasileiro na Universidade de York possui também investimento do governo federal. Como se deu?

A gente tem parcerias muito claras com o COB. A lei Agnelo-Piva é hoje uma das grandes fontes de fomento disso, e a gente evoluiu muito. Nos últimos anos várias modalidades foram beneficiadas com esses investimentos, o que nos leva a acreditar que hoje o grande apoiador, o grande estimulador de todo essas modalidades é o governo federal.

O senhor disse que pretende assistir a algumas provas. Quais seriam?

O judô, que eu acho que é uma grande promessa nossa. A Erica Miranda tem chance, a Mayra Aguiar é uma das grandes promessas nossas. Nós temos no levantamento de peso o Fernando Saraiva, que é uma grande promessa também. O handebol nosso tem uma expectativa muito boa. O desempenho nosso vai ser extremamente maior do que Guadalajara.

Mas o senhor não vai conseguir ir a todas essas provas...

Eu quero ver o futebol feminino. Nós tivemos agora, lamentavelmente, a desclassificação aqui no Canadá para as australianas (na Copa do Mundo feminina), mas eu acho que nós, mesmo sem a marta, a gente vai conseguir ter um desempenho acima do esperado.

Pessoalmente, quais os esportes que o senhor mais gosta?

Eu estou muito entusiasmado com o handebol. Tanto a equipe masculina quanto a feminina estão com um nível muito acima. Eu estive recentemente lá em São Bernardo assistindo aquela partida contra as norueguesas e o desempenho das meninas foi espetacular. Acho que a gente vai surpreender. Nós temos o Marcus Vinícius, do tiro com arco, que é um menino que está surpreendendo aí. No levantamento de peso, no judô a gente vai surpreender, e o Thiago que é a nossa grande esperança de passar o Gustavo Borges e acho que vai mandar bem.

Daquilo que o senhor já viu em Toronto, o que acredita que pode servir de exemplo para o Rio-2016?

Acho que a organização aqui... A gente vai fazer um balanço só no final. Mesmo eu indo (ao Brasil) na segunda-feira, vai ficar uma equipe do ministério do Esporte aqui. A secretaria de alto-rendimento vai continuar aqui, acompanhando tudo. Só no final a gente vai fazer um balanço e aprender com os acertos e corrigir os eventuais erros que acontecerem. Tivemos um problema agora na abertura, com o hino, eles tocaram o hino de Barbados... O credenciamento também a gente quer avaliar o desempenho aqui para evitar que ano que vem a gente também tenha algum problema com isso.

O Brasil corre o risco de perder as duas vagas que possui no basquete para a Olimpíada do ano que vem devido a um débito que tem com a FIBA. Como o governo está acompanhando isso?

Nós temos feito esforços no sentido de conseguir algumas empresas para ajudar. Nós entendemos que é um problema da Confederação Brasileira de Basquete. Respeitamos as decisões que eventualmente a FIBA venha a tomar, mas o que esteve dentro do nosso alcance nós conseguimos fazer com a mobilização. Eles perderam o patrocínio da Eletrobrás, tentamos recentemente que outras empresas pudessem fazer isso... Estamos acompanhando e esperando que tenha uma solução. Seria muito ruim para nós (ficar fora da Olimpíada). Acho que o basquete é uma das nossas grandes promessas, a equipe está muito bem aplicada. Infelizmente enfrentaram alguns problemas, e acho que eles não merecem que fiquem de fora dos grandes eventos.

 

Dinheiro do governo federal não vai haver?

Não, porque nós temos apoiado. Existem hoje convênios diretos do próprio ministério do Esporte para a CBB. Nós entendemos que o problema agora é de gestão e isso é uma questão que tem que ser muito bem resolvida entre a confederação e a FIBA. 

O senhor citou antes que a maior parte dos atletas que estão em Toronto recebem algum tipo de verba do governo federal. Para os Jogos Olímpicos, esse recurso poderá ser aumentado?

Nós já investimos R$ 4 bilhões desde o anúncio do Rio como sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Isso não é somente na preparação dos atletas. A gente está defendendo um legado muito importante para o País inteiro. Nós vamos entregar 12 centros de excelência de treinamento, vamos entregar mais de 260 centros de iniciação ao esporte. Temos hoje um compromisso claro de apresentar ao Congresso Nacional até o final de setembro uma Lei de Diretrizes e Bases para que a partir desses eventos todos transforme o Brasil e interiorize a prática esportiva. Ou seja, são investimentos que nunca aconteceram. Hoje o governo federal tem um foco muito voltado ao alto-rendimento e objetivando a partir daí deixar um legado para a base também.

Logo que assumiu o ministério, o senhor defendeu a criação dessa Lei de Diretrizes e Bases para o esporte, mas naquele momento citou que ainda estava em fase de estudo. Quanto isso avançou?

Nós criamos um grupo de trabalho inicialmente, formado por acadêmicos, membros do Conselho Nacional do Esporte, da Secretaria Nacional de Esporte, Lazer e Inclusão Social, a de Alto Rendimento, a própria Secretaria Executiva tem membros. A Cássia Damiani, que é uma acadêmica, está coordenando esse trabalho. Temos um grupo interministerial com o ministério da Educação, porque precisa desenvolver a educação física obrigatória nas escolas do Brasil. Ou seja, o que era no início, há seis meses atrás, fruto de três conferências nacionais, agora efetivamente a gente começa já a finalizar o texto que será entregue ao Congresso Nacional e aí caberá aos parlamentares fazer os aprimoramentos necessários.

A intenção do ministério é que seja encaminhado este ano?

Este ano ainda, para coincidir ano que vem (com a Olimpíada). A gente sabe que o processo na Câmara envolve várias comissões - a própria comissão do Esporte tem uma subcomissão. Nós temos dois representantes, que é o deputado Márcio Marinho (PRB-BA), que é o presidente da comissão, e o deputado João Derly (PCdoB-RS), que é o presidente da frente parlamentar do Esporte. Eles estão trabalhando junto com o grupo de trabalho para que, quando o texto chegar ao Congresso, chegue o mais completo possível, já que não vamos ter tanto tempo para negociar. A gente quer entregar no primeiro semestre do ano que vem.

Para isso ele precisa ser aprovado ainda este ano?

Não necessariamente. Acho que só em abrir a discussão no Congresso Nacional, se coincidir no início do ano que vem ele vai estar dentro do cronograma.

Na semana passada a atleta Joanna Maranhão disse que não viria representar aqui no Pan quem aplaude Eduardo Cunha, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro, devido à PEC que altera a maioridade penal. Como o senhor avalia esse tipo de manifestação?

Nós vivemos em uma democracia. A liberdade de expressão é um direito que está consagrado na Constituição. Acho que a gente não pode misturar questões legislativas com o esporte, que é hoje uma política transversal, ela supera essa questão de ideologia de gênero ou de questões penais. Acho que a gente tem que utilizar este momento que o Brasil vive, de sediar grandes eventos, para a gente interiorizar o esporte e levar ele inclusive como um veículo de inclusão social. O esporte não divide, o esporte aglutina. O esporte não pode ser uma ferramenta de controvérsia, ele tem que ser uma ferramenta de agregar todas as ideologias, todas as correntes, objetivando inclusão social, objetivando bem-estar, formação de cidadania, e é claro, um direito que tem que ser para todos os brasileiros.

 

O Congresso aprovou esta semana a MP do Futebol, mas com algumas mudanças, como a alteração do limite máximo de quanto se pode comprometer o orçamento com a folha de pagamento. Como o governo avalia?

Nós gostaríamos que fosse o texto original, que nós encaminhamos, que foi amplamente discutido com todas as entidades, mas a gente respeita o parlamento. O parlamento é um poder autônomo, existe harmonia entre os poderes, mas é um poder autônomo. Acho que, do todo, nós conseguimos manter aquelas contrapartidas, que serão fundamentais para um novo momento do futebol. Se, de um lado, a gente diminuiu a porcentagem que os clubes teriam que investir no futebol de base e feminino, a gente ganhou também com recursos que alguns parlamentares entenderam que deveria se criar mais fontes de fomento, através da Lotex, que vai para o futebol de base, futebol feminino. Não será utilizado para outro fim. Acho que, na soma geral, a gente conseguiu inaugurar um novo momento, de gestão muito bem transparente. A gente quer, e ficou mantido isso, punição aos clubes por eventual gestão temerária, conseguimos consagrar que os clubes consigam refinanciar e pagar utilizando a taxa Selic, que foi um consenso dentro da Câmara. Eu diria que, daqueles 7 a 1 que a gente tomou, a gente começa a reverter aquele quadro e é mais um golaço tanto para o governo, para o futebol brasileiro, e parabéns ao Congresso. A gente espera que no Senado a gente tenha a mesma celeridade.

Qual a opinião do senhor sobre a CPI do Futebol?

Acho que toda a investigação ela é válida, desde que os objetivos sejam realmente esclarecidos. Não cabe a nós... Acho que a CPI terá o papel de levantar os fatos, esclarecer e depois encaminhá-los à Justiça. Acho que em toda a democracia a gente tem que aprender  respeitar os Poderes. É legítimo o papel dos parlamentares, mas caberá aos órgãos de Justiça tomar as decisões. Tomara que essa CPI nos ajude a compreender e entender eventuais erros e desmandos que existam. É o que aconteceu hoje com a investigação que está sendo feita com a Fifa, e a todo o momento o governo foi favorável às investigações. Sejam elas da Justiça ou do poder legislativo, desde que esclareçam os fatos e os eventuais culpados sejam eventualmente punidos de acordo com o que a lei determina.

O governo tem receio que acabe respingando na Copa do Mundo?

Não, porque temos a convicção de que tudo foi feito com muita transparência. A Copa do Mundo, que havia um temor que seria um fracasso, que seria um desmando, funcionou muito bem. A gente conseguiu entregar nas cidades-sede um legado importante de obras estruturantes, tanto de infraestrutura urbana, de mobilidade. O que nós queremos agora é que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, mais do que as cidades-sede, que foram um avanço, que deixaram um legado, que a gente avance também em todo o País, levando equipamentos, uma legislação que defina qual será o papel da União, dos estados e municípios. A gente quer interiorizar a prática esportiva.

Como o governo investe no esporte Paralímpico?

Vamos entregar para o País um dos maiores centros de excelência para o esporte paralímpico, que vai ficar em São Paulo. A gente quer fazer também em nível estadual e municipal para que nosso atletas possam ter toda a infraestrutura que vai dar iniciação ao esporte de rendimento. E por uma razão não só de cunho social, mas de resultados. Eles surpreendem a gente muito mais do que atletas olímpicos. A expectativa no Rio-2016 é que a gente vai ficar entre os cinco primeiros, enquanto no olímpico é entre os dez. No Sistema Nacional do Esporte a gente quer definir políticas públicas de acessibilidade. A expectativa nossa é que, com a aprovação do Estatuto da Deficiência agora é que aumentou o repasse da Lei Agnelo-Piva para o paralimpismo. O governo vem demonstrando que a gente quer mais investimento.


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