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Marcos Caetano
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O papa corvo

Intrigados com o título da coluna? Bem, era essa a intenção - e eu já explico. Mas, antes de falar do Santo Padre, permitam-me mencionar outro homem, que de santo não tem nada, pois se parecia muito mais com um demônio: Osama Bin Laden. "Deus do céu, o colunista acaba de colocar o recém-eleito papa Francisco e o terrorista Bin Laden no mesmo parágrafo!", devem estar se contorcendo os pobres leitores, a essa altura. Calma lá. Acontece que esses dois homens, tão distantes na hierarquia moral, possuem uma característica em comum. E aí, volto a perguntar: intrigados? "Continuem com a gente", como falam os apresentadores de TV, antes de chamar os comerciais.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2013 | 02h05

O que há em comum entre o pontífice e o terrorista? Não é muito difícil adivinhar, uma vez que este texto está publicado no caderno de esportes. Pois é. Bin Laden e o papa Francisco compartilham algo em suas biografias: ambos foram apaixonados por um time de futebol. Não o mesmo time, importante esclarecer. Bin Laden frequentou o Estádio de Highbury nos anos 80, quando morava em Londres, para ver partidas do Arsenal. Um livro de um jornalista inglês demonstra com recibos que o tirano chegou até mesmo a comprar uma camisa da equipe para presentear um de seus filhos.

Já o papa Francisco não faz questão de esconder que continua torcendo por seu querido time de infância: o San Lorenzo de Almagro, do humilde bairro de Boedo, subúrbio de Buenos Aires. Em seus tempos de cardeal, chegou a posar com flâmula e camisa da equipe - e possui até carteirinha de sócio honorário, com foto e tudo.

É muito instigante notar que o terrorista torcia por um time chamado Arsenal, cujos torcedores se autodenominam "gunners", ou artilheiros. E que, no lado oposto, o papa é "hincha" de um clube com nome de santo. Coincidência? Pode ser. Mas o fato é que a cada dia eu acredito menos em coincidências, e vou pegando cada vez mais esse vício gostoso de ver sentido em tudo na vida.

Falemos, afinal, do título da coluna. E acreditem: caso vocês venham a se deparar com o papa Francisco, não tenham medo de ofendê-lo ao perguntar algo assim: "É verdade que Sua Santidade é um corvo?" Ele certamente responderá que sim, e com um sorriso nos lábios - esse mesmo sorriso franco que, já percebo, virá a se tornar uma de suas marcas registradas. É que os torcedores do San Lorenzo são chamados de "cuervos", corvos, um daqueles apelidos dados pelas torcidas rivais que acabam pegando, como urubu ou porco.

Como morei na Argentina e conheço a rivalidade do futebol daquelas bandas, ao tomar conhecimento de que o novo papa era corvo, pensei: pobre dos torcedores do Huracán, arquirrival do San Lorenzo. A essa altura, devem estar temendo ser excomungados.

Brincadeiras à parte, eu considero maravilhoso termos um papa que gosta de futebol. Fora Jorge Luis Borges, como ser argentino sem gostar de futebol, não é verdade? Esse dado humaniza a biografia de um homem que tem como principal missão aproximar a Igreja das pessoas comuns, o que é ótimo. Difícil agora, para nós brasileiros, é constatar que, da missa ao Messi, só dá Argentina...

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