O papel da imprensa

Muitos leitores concordaram com meu ponto de vista, na crônica de anteontem neste caderno - "Contra o que está aí" -, na qual pedi o fim da mediocridade e o retorno às origens do nosso futebol. Apoiaram o chuteiraço em favor do resgate do drible, do atrevimento e da alegria nos gramados do Brasil, além de lamentar a ação de cartolas e personagens menores que emperram o sucesso dos times de cá. A todos agradeço as observações, os adendos e os reparos.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

22 Março 2015 | 02h04

Um dos apartes se referia ao papel da imprensa nesse cenário. Há quem veja culpa dos meios de comunicação na divulgação e na aprovação de falsos parâmetros de qualidade. Ou por exaltarem esquemas medrosos como se fossem o fino da eficiência e da modernidade, ou por não denunciarem falcatruas e mutretas oficiais, ou mesmo por encherem a bola de jogadores regulares promovidos a craques e de técnicos retranqueiros, ultrapassados tratados sempre como mestres.

Reconheço que há pecados do lado de cá do balcão. Muitos. Não faltam exemplos de entusiasmo afobado com brilhareco de certas equipes, sem notar se se sustenta ou não. Sobram casos de exaltação a números e estatísticas - muitas vezes estapafúrdios -, como se fossem verdade definitiva, sem levar em conta o improviso, o acaso, o peso da criatividade. O homem.

Verdade que existem dirigentes cujas atividades deveriam ser investigadas a fundo, de preferência pela polícia, e no entanto aparecem na tevê, dão entrevistas a sites e jornais como autoridades imaculadas. Cansei de ver cartolão ser paparicado, por subserviência, imaturidade ou interesse por notícia exclusiva. Vi até assessor arrumar briga em Mundial, levar reprimenda superior e, mesmo assim, receber tapinhas nas costas de colegas a alçá-lo à condição de mártir. Afinal, sabe-se lá quando ele poderia ser-lhes útil...

Nós (imprensa, pois dela faço parte)cometemos erros, com a ressalva de que se trata de minoria quem pisa na bola. Como desprezível é a porção podre, a que tem interesses nada transparentes. Felizmente. Longe de mim comportar-me com espírito corporativista, mas a maioria dos jornalistas vai à luta, busca notícia correta, tem senso crítico, é isenta e equilibrada. Bota a boca no trombone e o dedo na ferida, sem mede de cara feia. Exerce, enfim, o trabalho com honestidade e suor.

Não se pode confundi-la com paraquedistas, com gente com um pé ali e outro aqui, com quem não possui familiaridade com a ética jornalística, com profissionais a serviço do show business e não com a informação. Mas que têm espaço para formar opinião e confundem. Nada contra emoção, poesia que sempre devem ser pescadas e ressaltadas numa partida de futebol. Caso contrário seria melhor nos ocuparmos só de robôs. Não ao olhar impiedoso e frio; tampouco, não à visão simplista e superficial, imediatista, que visa apenas à audiência ou à ação entre amigos.

A imprensa contribui para o crescimento do futebol ao destacar movimentos positivos, como o do Bom Senso F.C. ou a lei que pretende acabar com a farra do boi dos calotes dos clubes. Exemplos de compostura estão aí aos montes; cabe a você escolher quem vale a pena seguir.

Em tempo: o "chuteiraço", claro, é apenas um conceito, não um fato.

Sacrifício. São Paulo e Corinthians acenam com a escolha de times mistos para os próximos jogos no Campeonato Paulista. Sob a alegação, justa, de que o objetivo principal mira a classificação para as oitavas de final da Libertadores. Não estão errados. Pena que o calendário de novo aperte. O Corinthians terá quatro jogos entre hoje e o próximo domingo, todos válidos por um torneio do qual se sabe que terá vaga na fase de mata-mata. Tite seria descuidado se optasse por manter sempre formação mais forte. E a equipe dele está bem na fita sul-americana. Muricy será leviano, se não deixar de molho alguns atletas, pois daqui a dez dias o time define a sorte com o San Lorenzo, fora. Sacrifica-se o Estadual.

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