O peso do frango

Não há nada mais constrangedor para goleiro, como aconteceu ontem com Bruno, da Ponte Preta, do que engolir um frango, do que levar um peru. A penosa varia de acordo com a região; permanece inalterada a humilhação de ver a bola entrar no gol depois de escorregar pelo meio das pernas, indócil, peralta e cruel.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2011 | 00h00

Quem já passou por situação idêntica ao do goleiro da Macaca sabe o quanto é desagradável. O sujeito não sabe onde enfiar a cara, nem pra onde olhar, nem o que dizer. Coça a cabeça, esboça uma reclamação com algum zagueiro, só por encenação, dá uma espiada no bandeirinha, para ver se ele, por milagre, não enxergou alguma irregularidade que anule o lance. Nada, nenhum auxílio.

Lá fica o goleiro sozinho, no máximo recebe um tapinha nas costas de um companheiro mais sensível. O time rival comemora, abraça o carrasco que tentou a sorte, muitas vezes num chute chinfrim, e se deu bem, o que realça a derrapada. E a reação das torcidas? A de seu time no mínimo se aborrece; a rival parte pra gozação. "Frangueiro, frangueiro!" Sei de muito camisa 1 famoso que perdeu o sono por causa disso.

Sou e serei sempre solidário ao goleiro - não é por acaso que defendo o direito dele mexer-se embaixo das traves, de avançar pra cima da bola na hora do pênalti. Por isso, também, torci pelo Bruno, após o frangaço no jogo com o Palmeiras. O Max Sandro - Pardalzinho para os íntimos - arriscou de longe, aos 20 minutos, e só se deu conta do gol na hora em que o juiz correu para o meio do campo. Meio sem jeito, recebeu os abraços dos amigos.

A bola escapuliu das mãos do Bruno, foi pra baixo das pernas e entrou mansinha. Ele ainda puxou-a para si, na tentativa de enganar a arbitragem e diminuir o vexame. Não teve jeito, foi gol. Seus colegas cercaram o Sálvio Spinola, só pra desencanar, pois sabiam da inutilidade do protesto. Bola pra frente, e o Bruno, que não teve mais trabalho dali em diante, até que saiu de cabeça erguida no intervalo. "Não posso ficar lamentando. Só não posso repetir." Certíssimo. Depois do apito final, com a vitória de virada, Bruno ganhou aplausos. Ufa!

Pra mim, esse incidente de percurso ocorrido em Campinas foi um dos dois episódios marcantes do último capítulo da fase de classificação do Campeonato Paulista. Etapa que, finalmente, terminou, depois de 19 rodadas arrastadas, de muita energia gasta à toa. O outro fica para a vaga da Lusa, obtida em cima da hora, com o 1 a 0 sobre o São Bernardo, para azar do São Caetano, excluído do momento que vale de fato no torneio domésticos. Coisas da vida...

A presença do quarteto São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Santos era bola cantada desde as rodadas iniciais. Jamais houve ameaça a qualquer um deles. O que se esperava, havia semanas, era a definição a respeito da posição de cada um ao término desta etapa. Com os resultados de ontem, o São Paulo superou o Palmeiras na liderança e o Corinthians empurrou o Santos para 4.º. As mexidas ocorreram também na situação dos demais, os sparrings.

Coadjuvantes?! Sei não, há duas pegadinhas na composição dos duelos para as quartas de final, em jogos únicos e com eventual disputa por pênaltis. Os quatro primeiros são favoritos, por aquilo que apresentaram na prática. Mas não descarto surpresas.

Uma delas é justamente a Ponte - não por acaso usada como mote para a crônica de hoje. O time campineiro ficou em 7.º lugar e tem um retrospecto de respeito diante dos grandes. Além do Palmeiras, bateu Corinthians (1 a 0), São Paulo (1 a 0), Lusa (3 a 1) e empatou com o Santos por 2 a 2. Curiosamente, perdeu para Oeste e Mirassol, ambos por 2 a 1. Uma equipe ajustada, finalista três anos atrás, e que pode quebrar a mesmice agora.

A Lusa também não deve ser desprezada, por sua história e por um aspecto que conta em fase de eliminação direta. Ela conseguiu um lugar quando praticamente não havia esperança. É franco-atiradora, não tem nada a perder, ao contrário do São Paulo, que ficou à frente dos demais.

Palmeiras e Corinthians pegarão, respectivamente, Mirassol e Oeste, que estão no lucro e na teoria já cumpriram seu papel. As duas equipes do interior diminuíram o ritmo nas últimas semanas e vão às quartas por terem acumulado pontos na boa largada. A dupla de gigantes da capital tem a perder. Importa que enfim começará o Campeonato Paulista de 2011.

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