O peso do ídolo

O clássico de domingo tem vários atrativos, e um dos principais é a presença de Rogério Ceni. Celebridades da bola, como o goleiro são-paulino, são fundamentais para a graça do espetáculo e o envolvimento do público. Quanto mais conseguirem estender a carreira, atuando em bom nível - mesmo que longe das fases áureas -, melhor para o futebol.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2012 | 03h08

Esses personagens apimentam o jogo, aumentam a renda, proporcionam mais audiência à TV. É certo que, se o São Paulo vencer com boas defesas ou um gol de seu capitão, a alegria tricolor terá peso dobrado. Se os corintianos, favoritos, ganharem com uma falha sua, o deboche não terá limite, e o assunto na noite de domingo e na segunda não será outro nos debates esportivos e nas rodinhas de bar.

Clássicos com o Corinthians têm significado especial para Ceni. Foi diante do rival, no ano passado, que marcou o centésimo gol da carreira. Mas também foi contra os corintianos que sofreu algumas das grandes derrotas de sua vitoriosa trajetória. No mesmo 2011, amargou um 5 a 0 no Brasileirão.

Há uma semana, em conversa com um amigo palmeirense, perguntei-lhe se havia visto os lances da partida entre São Paulo e Náutico, vencida pelos pernambucanos por 3 a 0. Sua reposta: "Vi. Não foi aquela em que o Rogério fez gol contra?" Ele nem citou a pane do ataque, a ineficiência do meio-campo, a atuação grosseira dos laterais ou a noite inspirada do Náutico. O confronto ficou marcado pelo gol contra de Rogério, que, a rigor, não fez diferença para o jogo. O placar já apontava 2 a 0 e o São Paulo estava entregue.

Nas horas e nos dias seguintes ao desastre no Recife, o goleiro ocupou importante espaço na mídia. Muitos passaram a defender, de forma enfática, sua aposentadoria. "Rogério já cometeu duas falhas em seu retorno", alegaram.

De fato, errou num gol do Fluminense e não levou sorte no terceiro do Náutico. Mas foi bem contra o Flamengo, na goleada por 4 a 1, destacou-se contra o Bahia, em Salvador, no triunfo por 2 a 0 (em que anotou gol de falta), abriu de pênalti a vitória sobre a Ponte Preta. Tudo o que Rogério faz - de bom e ruim - toma proporção agigantada.

O Rogério de hoje, claro, não é o mesmo de anos atrás, quando, por exemplo, parou o bombardeio do Liverpool, na final do Mundial de 2005. Ainda assim, aos 39 anos, é superior a Dênis (esforçado, longe de ser ruim, mas que comete um número nada desprezível de falhas) e infinitamente melhor que Neto e Gabriel, nossos goleiros na fracassada campanha de Londres. Se não sofrer mais nenhuma lesão séria, pode perfeitamente atuar por pelo menos mais uma ou duas temporadas.

O ex-goleiro inglês Peter Shilton entrou em campo até os 47, o belga Preud'homme foi até quase 41, ambos fazendo papel digno. Figuras como Rogério - adorado pelos são-paulinos e odiado por grande parte dos torcedores rivais - elevam nosso futebol, cada vez mais carente de ídolos.

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