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O poder imperial do futebol

No luxo de um prédio na Barra da Tijuca ou na arquibancada de um estádio, aquilo que você enxerga no campo é apenas um detalhe diante dos interesses e das negociatas que movem o futebol. A barbárie da Bombonera, dominada por facção criminosa que se apoderou do espaço e o transformou em meio de vida, não está distante da comercialização da seleção brasileira pela CBF.

Paulo Calçade, O Estado de S. Paulo

18 de maio de 2015 | 03h00

Para os amigos da corte, certamente não há relação entre um acontecimento e outro. Mas quem ainda é capaz de se emocionar com o futebol sabe que a disputa pelo poder é a engrenagem que move todo tipo de cobiça.

O problema é que ambição demais acaba fazendo vítimas, como revelou o Estado ontem. O repórter Jamil Chade detalhou com documentos como a CBF de Ricardo Teixeira entregou a seleção a uma empresa de fachada, que pode até interferir nas convocações. Teixeira saiu de fininho, mas a ideia de seleção forte e clube fraco está mantida. O diferencial agora é a instalação de ações cosméticas com o objetivo de dar um ar de modernidade à nova administração e ao contundente atraso que pôde ser comprovado nas duas primeiras rodadas do Brasileirão. Mesmo depois dos 7 a 1 a seleção continua a ser um grande negócio. Mas apenas para a CBF, porque o vínculo emocional do torcedor com o futebol está cada vez mais fortalecido pelo clube, a paixão capaz de alterar o humor ou fazer transbordar de alegria uma entediante tarde de domingo.

Manter o esporte blindado para evitar qualquer tipo de controle externo é indispensável para os cartolas. E os europeus não são diferentes, apenas mais discretos. A novidade, porém, é que estão sendo pressionados pela Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa a estabelecer regras de transparência.

Esqueça as manjadas ameaças da Fifa contra a ingerência dos governos no esporte, utilizadas por aqui para manter o futebol argentino e o brasileiro exatamente do jeito que estão. Denominado “A reforma da governança do futebol”, o relatório do deputado trabalhista britânico Michael Connarty começou a ser elaborado após as denúncias de corrupção na escolha dos próximos Mundiais, na Rússia e no Qatar. Pode ser o início da virada.

Por mais que a Fifa esperneie, a entidade está fragilizada. O Conselho da Europa deseja que seus estados-membros estabeleçam “um quadro jurídico para incentivar as organizações esportivas, dentro de sua jurisdição, a combater a corrupção”.

A ideia é que as entidades que lidam com grandes somas de dinheiro se submetam às regras de transparência obrigatórias a qualquer companhia, “ainda que as federações estejam constituídas como associações sem fins lucrativos”.

O texto faz parte de uma resolução do órgão europeu, que reconhece a necessidade de as entidades esportivas serem independentes. Mas entende que isso não pode servir de obstáculo, de impedimento para justificar a falta de lisura nos seus procedimentos.

Trata-se de um posicionamento revolucionário, que não só identifica os interesses por trás do manto protetor da Fifa, como também a torna parte do processo de transparência. Se o poder imperial da federação internacional pode ser peitado e questionado na Europa, o mesmo pode acontecer com a CBF no Brasil.

O esporte argentino não é muito diferente do brasileiro, principalmente quando usado em benefício de grupelhos. Julio Grondona comandou a AFA por 35 anos, da qual só saiu morto. A seleção vice-campeã mundial vai bem, mas o futebol doméstico é desorganizado e está envolto pela violência das torcidas. A semelhança não é mera coincidência, apenas o verniz é diferente. O futebol brasileiro deve ser tratado como patrimônio cultural, antes que perca o pouco que resta de sua graça.

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