O ''professor'' Dunga

Sete jogos em 23 dias, sete vitórias, a liderança das Eliminatórias e a conquista da Copa das Confederações sobre os Estados Unidos por 3 a 2, de virada. Esse foi o saldo do mês, espetacular para Dunga no comando da seleção. No ano que vem, na Copa do Mundo, haverá um cenário parecido, com a mesma quantidade de partidas, pouco tempo para treinamento e jogadores desgastados. A diferença do fiasco na Alemanha é que hoje há um grupo tecnicamente limitado em alguns setores, mas comprometido com a vitória. Pode dar certo.Apesar de todos os ajustes que deveriam ser feitos na condução do time, para ampliar o repertório de jogadas, variar o estilo e torná-lo mais atraente, é inegável que o teimoso Carlos Caetano Bledorn Verri, um novato sem uma gota de experiência como treinador, já merece o título de "professor", aquele que o futebol brasileiro adora carimbar no lombo de suas "autoridades".Os números são excelentes: 31 vitórias, 10 empates e quatro derrotas, responsáveis pela Copa América, a Copa das Confederações e o primeiro lugar das Eliminatórias. Seleção é muito diferente de clube, é óbvio.O tempo para treinar é escasso e geralmente mal utilizado. Atrás disso, porém, interferindo em cada gesto e decisão tomada pela comissão técnica, há um grupo exaurido após o final da temporada, período reservado às principais competições, como agora. Na seleção, a missão mais importante começa depois do expediente. É como chegar do trabalho e ainda ser obrigado a dar um trato na casa, cuidar das crianças.A missão do treinador, então, por mais inúteis que sejam alguns treinamentos, como os rachões dos jogadores - uma espécie de torneio interno em time de futebol -, é de malabarista de circo chinês, são vários pratos para controlar ao mesmo tempo. Pensando no Mundial, o melhor é não atrapalhar, é eliminar os adversários internos e torcer para que a CBF não transforme a fase de preparação numa espécie de 25 de março do ludopédio nacional, como se viu nos treinamentos em Weggis, na Suíça, em 2006. A entidade ganhou dinheiro, nós perdemos a Copa do Mundo.A equipe de 2010 deverá ser basicamente a que enfrentou os norte-americanos ontem. Por mais importante que seja a preparação nos quatro anos que antecedem a Copa, estou convencido - como diria o presidente Lula - que o fundamental é o entendimento, o ambiente do grupo, a motivação. Problema é não ter um substituto para Kaká.A simplicidade é mais importante do que as complexas teorias do treinamento. Mais ou menos o que aconteceu com Felipão, em 2002, um especialista em aglutinar pessoas. Certamente ele entende mais disso do que de futebol. Ganhar a Copa das Confederações é importante, mas não antecipa nada. Dunga, a invenção da CBF - mais por falta de competência do que por criatividade - hoje pode observar seus colegas de profissão do pedestal. Nos últimos dez dias, o futebol paulista foi sacudido por um terremoto que detonou duas de suas cadeiras cativas. Muricy Ramalho e Vanderlei Luxemburgo, nomes que rondam a seleção, perderam seus empregos e caíram novamente no mercado.O caso de Luxemburgo é especial. O treinador mais vitorioso em atividade no futebol brasileiro foi demitido, oficialmente, por quebra de hierarquia. É que o presidente Luiz Gonzaga Belluzzo resolveu tomar-lhe a presidência do clube de volta. Nessas roubadas Dunga não entra. Ontem, parabenizou Ricardo Teixeira, o chefe, por mais uma conquista.

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