O que é a natureza...

O futebol brasileiro está melhorando. É a conclusão a que chega quem assistiu às mesas redondas após o término da rodada de domingo. O motivo principal: o jogo entre o líder Cruzeiro e o vice-líder São Paulo, que terminou com a vitória deste por 2 a 0. Não discuto. Foi uma bonita partida, mas que representa antes a exceção do que a regra. No mesmo horário, um insosso Flamengo 1 x 0 Corinthians estava lá para comprovar. Foi muito chato, a desafiar a sonolência de quem havia enfrentado um almoço de domingo um pouco mais reforçado, com macarrão da mamma e vinho. O convite ao sono era irresistível, mesmo porque o Flamengo, em grande recuperação após a chegada de Vanderlei Luxemburgo, não chega a ser um espetáculo para os sentidos. E o Corinthians há muito se rendeu à tal da fórmula pragmática, que vinha de Tite e foi herdada por Mano Menezes. Dificilmente toma gols, mas não encanta ninguém, exceto sua imensa torcida.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2014 | 02h02

Mas quais times encantam, com exceção dos que lideram o campeonato? De maneira geral, os grandes têm jogado muito aquém do que se espera. Mesmo o Atlético-MG, que encarnou o "jogo bonito" quando conseguiu o título na Libertadores, caiu muito de nível. Dos times do Sul, o Grêmio, de Luiz Felipe Scolari, não parece voltado para o prazer da plateia, e o Internacional, que todo ano é proclamado favorito ao título, oscila demais. E não falo apenas de resultados, mas na maneira de jogar: às vezes é agradável de ver, outras, nem tanto.

Em São Paulo, além do Tricolor e do Corinthians, sobram Santos e Palmeiras. Este, agora com Dorival Junior no comando, tem se mantido a duras penas fora da zona de rebaixamento. Vive da mão para a boca, sem ânimo para pensar em outro objetivo que não o de sobreviver na Série A no ano do seu centenário. Não está para luxos. E nem mesmo o Santos, que ocupa posição intermediária na tabela - sem grandes riscos nem maiores aspirações - tem dado show em campo. Muito pelo contrário. Estive na Vila Belmiro e vi um Santos 2 x 1 Coritiba para lá de sofrível.

Afora os dois lindos gols (um de Lucas Lima, outro de Robinho) e alguns lances mais vistosos, como o chapéu de Robinho em um adversário, o que se viu na Vila foi preocupante. Depois de um primeiro tempo bom, os santistas parecem ter esquecido o futebol no vestiário. Seria preciso tentar entender como um time perde de uma hora para outra o padrão tático e passa a atuar de maneira dispersiva, aleatória, sem ideia de jogo. Isso, contra um adversário que, com todo o respeito, parece abaixo da crítica. O mesmo Coritiba, que no ano passado se apresentara na Vila comandado por Alex e fora superior ao dono da casa, agora parece fraco demais para deixar a zona de rebaixamento. É triste de ver.

O jogo foi a tal ponto entediante que, mesmo com a vitória, o Santos saiu de campo debaixo de vaias. Ao meu lado, nas sociais do estádio, um conselheiro do Peixe balançava a cabeça de um lado para outro, desolado. Ninguém conseguia manter o otimismo diante de tal apresentação. Nem é o caso de dizer que a torcida é exigente demais. Pode até ser, dada a histórica relação do clube com o chamado futebol-arte. Quem viu Pelé, Robinho, Neymar não se contenta com pouco. Mas hoje a torcida está pedindo o mínimo indispensável.

E mesmo este mínimo não vem. Ou comparece de maneira rarefeita, mesquinha. Na verdade, apenas Cruzeiro e São Paulo têm jogado futebol consistente e gostoso de ver. Os mineiros não são surpresa. Trazem a qualidade do ano passado, quando foram campeões. O São Paulo, a meu ver, é a boa novidade. Fala-se muito do "quarteto" - Kardec, Ganso, Kaká e Pato - mas é o time, em seu conjunto, que tem apresentado uma bela maneira de jogar. E isso, treinado por Muricy Ramalho, que, segundo detratores, é inventor d o "muricybol", modalidade esportiva parecida com o futebol, porém despida de qualquer emoção, criatividade ou beleza. E não é que o time de Muricy está jogando bonito? Essa, a grande surpresa do campeonato. A conversão de Muricy ao beautiful game. O que é a natureza..., como diria o grande Zé Trindade.

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