'O que é a natureza!'

Zé Trindade foi um gigante de 1,50 metro da comédia brasileira. Aquele toquinho de gente, com cara e bigodinho de gaiato, tinha vários bordões marcantes, que usou por décadas em suas aparições no rádio, no cinema, na televisão. Um deles surgia toda vez que topava com um fato ou personagem fora dos padrões. "O que é a natureza!", exclamava, enfático, para exprimir surpresa.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2010 | 00h00

Lembrei do baianinho que alegrou gerações nos dois últimos gols da vitória do Internacional sobre o Corinthians, ontem à tarde, em Porto Alegre. A reação inicial de espanto veio com Alecsandro, que fez 2 a 1 no primeiro toque na bola, tão logo entrou em campo. A segunda, e definitiva, na cobrança de falta de Andrezinho, em cima da hora, menos de dois minutos depois do empate.

Os dois nomes do domingo de festa gaúcha viram a maior parte do clássico no banco de reservas. Até os 30 minutos do segundo tempo, sofriam à beira do gramado, como os torcedores colorados que lotaram as arquibancadas do Beira-Rio. O Corinthians tinha reagido à pressão dos anfitriões, chegara ao empate com belíssimo gol de Jorge Henrique e ensaiava uma virada heroica.

O técnico Celso Roth resolveu arriscar cartada dupla, pois o resultado tirava seu time da briga pelo título brasileiro. Um ponto não ia refrescar nada a situação, ainda mais no duelo com o líder. Então, o que fez? Chamou Andrezinho e Alecsandro (fora de combate há mais de um mês por contusão), e os mandou entrar em substituição a Giuliano e Leandro Damião, atacantes perdidos na marcação da zaga corintiana.

Alecsandro estava a cumprimentar os companheiros e a discutir com eles a melhor forma de se distribuírem no ataque, quando vê a bola cruzada por Andrezinho sobrevoar a área paulista e sobrar na sua frente. Tocou para o gol, recolocou seu time na frente e na sequência participou de dois lances que por pouco não definem tudo de vez.

Ponto para Roth, todo prosa com a mexida. Porém, a apreensão desabou sobre o estádio aos 45, com saída errada do goleiro Renan, que não cortou cruzamento e viu Nei espalmar de forma espetacular cabeçada de Paulo André. Como Nei é lateral, levou vermelho; pênalti, que Bruno César cobrou no capricho.

Tristeza, conformismo? Que nada! O Inter dá a saída, se manda para o campo do rival, Paulo André faz falta perto da área, leva o segundo amarelo, é expulso, e Andrezinho ajeita a bola com cuidado. Cobra, ela desvia em Moacir, engana Júlio César e morre na rede. Farra do Inter, 41 pontos e, assim como o Corinthians, um jogo a menos que os demais.

"O que é a natureza!", pensei na hora. Celso Roth, rotulado de pé-frio em muitas equipes que dirigiu, vê sua estrela brilhar forte na passagem atual pelo Inter. Virou a maré em seu favor com o bi na Libertadores, agora faz alterações certeiras, ganha confronto que muda o curso da Série A. Daqui a pouco, será promovido de professor a mestre.

Nada garante que o Inter ultrapasse os concorrentes que estão à sua frente no torneio doméstico. Mas a vitória, e da maneira como foi construída, no mínimo sinaliza como deve comportar-se em dezembro, na disputa do Mundial. Os gaúchos foram tenazes, aplicados no primeiro tempo, bloquearam os espaços, não deram a mínima para a boa campanha corintiana. E, ao sentirem o cansaço na parte final, constataram que têm alternativas eficientes no banco.

O Corinthians teve desempenho aquém do habitual. Não foi dia ideal para jogadores que desequilibram, como Iarley, Bruno César, Jorge Henrique - embora os dois últimos tenham marcado. Chegou duas vezes ao empate mais na base de suor e persistência do que por mérito de ações bem coordenadas. Pelo conjunto da obra, depende só de seu esforço para retomar a ponta - falta o jogo com o Vasco, em13 de outubro.

A pressão, no entanto, está no ar. O Fluminense reencontrou o rumo, ganhou a segunda em seguida e mostrou, em Salvador, que deixou a turbulência para trás. Campeonato aberto e com campo fértil para reviravoltas.

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