O que é torcer?

Boleiros

Marcos Caetano, marcos.caetano@terra.com.br, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

Entrevistado ao longo da semana sobre a possibilidade de voltar ao Brasil, após um reinado de quase uma década e sete títulos consecutivos no futebol francês, Juninho Pernambucano foi categórico. Se tinha alguma vontade de atuar por um clube brasileiro, esta vontade se esvaeceu com a lamentável repercussão internacional das cenas de violência protagonizadas por integrantes da torcida do Fluminense. A atitude dos torcedores tricolores - que não é um fato isolado na cena esportiva nacional - me fez refletir sobre o que é torcer. E, principalmente, sobre o que não é. Depois da estreia com vitória sobre o São Paulo e de um empate (usando o time reserva) com o Barueri, pelo Campeonato Brasileiro, o Fluminense foi eliminado da Copa do Brasil ao empatar com o forte Corinthians. Baqueado, o time se descontrolou e perdeu para o Santos, no último domingo, no Maracanã. Uma derrota em quatro jogos: foi o que bastou para torcedores se acharem no direito de agredir os jogadores no treinamento. O mais incrível é que muitos fanáticos, inclusive de outras equipes, acharam justificável a atitude dos centauros enfurecidos das Laranjeiras. Será que isso é amar um clube? Claro que não. Uma coisa que o futebol nos ensina é a perder. Raciocinem comigo: o São Paulo, time da década, perdeu 14 dos últimos 17 Campeonatos Brasileiros que disputou. Já a Seleção Brasileira, maior potência do esporte, perdeu duas Copas do Mundo para cada uma das cinco que ganhou. Perder é algo que um torcedor de verdade acaba aprendendo. Caso contrário, enlouqueceríamos, ou simplesmente abandonaríamos o costume de acompanhar futebol. Mas, se isso é verdade, por que tanta gente continua indo aos estádios e amando seus clubes? Masoquismo? Nada disso. O que aprendemos, com o tempo, é que o amor é mais importante do que a vitória, que a perseverança é mais importante do que a vitória, que a fé é mais importante do que a vitória, que o ritual de ir ao estádio com quem amamos é mais importante do que a vitória. Pode parecer um paradoxo, mas ninguém acompanha futebol para ver seu time vencer. Acompanhamos futebol para aprender a acompanhar futebol e, assim, aprendermos a viver melhor. Futebol é celebração. É celebrar o que a vida coloca diante de nós, sejam coisas boas ou ruins. É, acima de tudo, um exercício de humildade, que faz entender que não podemos controlar todos os eventos da vida. Com os nossos times, aprendemos a aceitar os inevitáveis fracassos que virão e a lidar melhor com a vitória, entendendo que ela será sempre fugaz. A diferença entre os torcedores brasileiros e os torcedores europeus é imensa, justificando a decisão do grande Juninho de não voltar para cá. Enquanto os bons torcedores amam o clube de uma forma quase religiosa - sem exigir nada em troca -, uma parte significativa dos torcedores brasileiros, especialmente os bárbaros das organizadas, se consideram donos dos clubes. E donos irascíveis, com nenhuma paciência para tolerar deslizes e enorme disposição para agredir o que está em volta quando as coisas não saem de acordo com seu inatingível script de vitórias e glórias permanentes. Tudo isso só serve para cristalizar ainda mais a impressão que alguém registrou certa vez, com grande acerto: o torcedor brasileiro não ama o esporte. Ama apenas e tão somente as conquistas, as vitórias. E isso não é torcer. É necessidade de autoafirmação, busca de compensações pelas frustrações da vida. No dia em que entendermos, de verdade, o que é amar um clube, talvez nossos craques mais esclarecidos decidam voltar a jogar aqui. Até lá, vamos ter que ficar sem a categoria de Juninho Pernambucano - e com a truculência dos brucutus que acham que são torcedores.

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