O que eu não queria escrever

A trajetória de um articulista pode ser explicada por meio dos assuntos sobre os quais ele gosta de escrever, mas, eventualmente, é possível entendê-lo pela ótica dos assuntos que odeia abordar. Eu adoro escrever sobre esportes - e, com mais de 500 colunas semanais publicadas, nem poderia ser diferente, salvo se o masoquismo fizesse parte do meu caráter, o que não é o caso. É delicioso poder transformar em palavras o gol eternizado pelo craque, a glória de uma grande conquista, o drama da derrota amarga, a emoção de um clássico eterno. Mas eu simplesmente detesto gastar a paciência do leitor, a minha, as teclas do computador, papel e tinta com assuntos como os que a imprensa esportiva vem sendo obrigada a cobrir na reta final do Campeonato Brasileiro.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

Eu não queria ter que escrever sobre pênaltis. De nenhuma espécie. Bem marcados ou mal marcados, pênaltis são coisas pavorosas. Uma falta dentro da área, normalmente tosca, normalmente desesperada, punida com um tiro livre direto, normalmente convertido sem nenhum tipo de magia, salvo quando um Loco Abreu da vida resolve tratar com atrevimento uma questão tão séria - que deveria ser responsabilidade do presidente do clube, como dizia Neném Prancha. Pênalti é um negócio chato a vida toda. Pior que um pênalti, só mesmo uma disputa de pênaltis, diabólica invenção da Fifa para desempatar uma partida cheia de alternativas com o expediente com menos alternativas do futebol. Só que, como pênaltis pessimamente marcados estão escrevendo a história de um campeonato tão disputado, somos obrigados a falar deles, desses malditos pênaltis.

Eu não queria ter que escrever sobre malas brancas. Ou pretas. Ou alaranjadas. Ou amarelas com bolinhas azuis. E olha que eu nem acho exatamente absurdo um jogador receber incentivo extra para ganhar uma partida. Porque, se é verdade que o salário do jogador deveria ser suficiente como recompensa pelas vitórias, qual a justificativa do bicho, que existe desde meados do século passado? O bicho é um incentivo extra. Bem como são incentivos extras, os bônus que os executivos recebem para atingir suas metas. Bem como algumas empresas pagam comissão a corretores que trabalham para outras empresas, para que estes vendam seus produtos. Certa ou errada, o fato é que essa história de mala branca é chatíssima. Pior até do que o capítulo dos pênaltis. Odeio malas. Odeio escrever sobre malas, sejam as valises para transportar coisas, sejam as pessoas que enchem a nossa paciência.

Eu não queria ter que escrever sobre torcidas que exigem derrotas de seus times apenas para prejudicar os rivais. Porque escrevo sobre esportes - e isso não é esporte. Sadismo e vingança não têm, ou não deveriam ter, nenhuma relação com algo saudável quanto o esporte. Torcer pelo tropeço do rival faz parte do jogo. Lutar dentro de campo para causar esse tropeço é a essência do jogo. Mas buscar a queda do rival com a própria queda é algo absolutamente tristonho. Sobre o qual, portanto, eu preferiria não escrever.

Eu não queria ter que escrever sobre dirigentes que se comportam como torcedores e insinuam - às vezes dizem explicitamente - que seus times não farão muita força diante dos adversários de seus eternos rivais. Pior ainda: tenho enjoo só de pensar em ter que teclar uma mísera palavra para tentar descrever a indignidade que é um cartola dar férias aos jogadores antes do final do campeonato, apenas para não oferecer risco de perda de pontos para os adversários desses rivais. Isso é um lixo. Não quero escrever sobre isso.

Eu queria escrever sobre tanta coisa boa, mas os bastidores do futebol, que tomaram conta da boca de cena e hoje rendem mais matérias do que os verdadeiros astros do espetáculo, obrigam os cronistas esportivos a encher a sua paciência, leitor amigo, com assuntos tão desinteressantes como um árbitro de futebol. Árbitros que, antes, se vestiam de preto, uma cor muito de acordo com sua condição de coadjuvantes. Hoje, eles adoram usar amarelo. Porque finalmente se deram conta do protagonismo que conquistaram nos cadernos esportivos.

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