Kevin Lamarque/Reuters
Kevin Lamarque/Reuters

O que vai acontecer com os produtos licenciados da equipe de futebol americano de Washington?

Time decidiu alterar seu nome, decisão defendida há décadas por ativistas e grupos indígenas americanos, mas forçada por grandes patrocinadores como Nike e FedE

Jonah Engel Bromwich/The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2020 | 10h00

Matt Pearson nasceu na capital dos Estados Unidos, Washington, em 1983, o que significa que tem idade para lembrar de quando o time de futebol americano da sua cidade venceu o Super Bowl pela segunda vez, em 1988. Ele lembra do cheiro das batatinhas e da cerveja, lembra dos pais gritando feito loucos com a televisão, da recuperação histórica da equipe e da vitória.

Depois daquilo, Pearson, que trabalha como designer industrial, disse que se tornou “um torcedor fanático e dedicado”. Quando já sabia ligar a televisão sozinho, “nada conseguia me tirar da frente dos jogos de domingo do time de futebol americano de Washington", disse ele. “Na época eu os chamava de Redskins . Era uma obsessão.”

Pearson, que é negro, disse que, no ensino fundamental, quando foi confrontado pela primeira vez com a ideia segundo a qual o nome do time é racista, “Meu cérebro não conseguiu processar aquilo". Mas, conforme cresceu e aprendeu mais a respeito de política, ele se voltou contra o nome da equipe e a liga de futebol americano, que lhe pareceram cada vez mais inaceitáveis. Ele não acompanha mais os jogos de futebol americano profissional.

Ainda assim, a casa dele, como a de muitas pessoas que cresceram em Washington na época (incluindo a da minha família; somos amigos dos Pearsons), já esteve repleta de camisas e objetos do time, como uma lata da edição especial da coca-cola comemorando a vitória no Super Bowl, com o logotipo da equipe. Na casa dos meus pais, ainda temos uma edição especial do Banco Imobiliário com a temática dos Redskins, lançado em 2005.

A equipe decidiu alterar seu nome, decisão defendida há décadas por ativistas e grupos indígenas americanos, mas forçada por grandes patrocinadores como Nike e FedEx. A mudança vai transformar camisas e artigos de um time em atividade em artefatos do seu antigo nome racista (na quinta feira, múltiplas alegações de assédio sexual e outras formas de abuso dentro da organização foram publicadas pelo Washington Post).

Desde a morte de George Floyd sob custódia policial no fim de maio, que desencadeou uma onda de protestos contra o racismo em todos os Estados Unidos, marcas como Aunt Jemima e Uncle Ben’s repensaram a iconografia racista que usam para vender seus produtos. Mas, se essas imagens são usadas em itens descartáveis, o nome e o logo dos Redskins aparecem em incontáveis artigos dos quais os torcedores não pensavam em se desfazer. Alguns deles são velharias em que ninguém reparava muito. Outros são lembranças cheias de significado para seus donos.

Os milhões de habitantes da capital, de Maryland e da Virgínia que torcem ou torceram para o time local terão que decidir, com entusiasmo ou relutância: o que vai acontecer com seus produtos dos Redskins?

‘Era o nosso time’

Entre aqueles incentivando as pessoas a repensar sua relação com os produtos licenciados da equipe estão ex-jogadores dos Redskins. Darrell Green, lenda do Washington imortalizado no Hall da Fama e dono do recorde de mais temporadas seguidas com passes interceptados, disse à ESPN essa semana que pensava em jogar fora suas camisas antigas e demais lembranças.

Ele explicou mais em entrevista ao New York Times, dizendo que agora é o momento de mirar um futuro melhor em vez de se apegar à nostalgia.

“Não devemos ansiar por algo que já passou, seja uma camisa de time ou um momento, quando isso é prejudicial aos vivos", disse ele, referindo-se às comunidades de indígenas americanos. “Meus milhões, meus troféus, vídeos, camisas, minhas coisas… Não vale a pena. Para mim, o ser humano vem em primeiro lugar.”

Alguns torcedores estão com pressa de se livrar desses símbolos. Patrick Casady, 25 anos, vive em Maryville, Missouri, mas decidiu torcer pela equipe de futebol americano de Washington quando menino porque gostava das cores e estabeleceu uma relação com os jogadores daquela época.

Entrei em contato com ele pelo site de leilões eBay, onde vendia uma camisa do quarterback Robert Griffin III, que durante algum tempo trouxe esperança para a região metropolitana da capital.

“Na infância, sempre soube que o nome era racista. Durante muito tempo, ninguém fez nada a respeito disso, por mais evidente que fosse", disse Casady.

Finalmente, ele deixou de usar suas muitas camisas fora de casa. “Sinceramente, é um pouco constrangedor", disse ele. “Pessoalmente, é algo que eu jamais diria para um indígena ou descendente de indígenas, o que mostra que se trata de um termo racista.”

Mas muitos torcedores dizem que seguirão vestindo orgulhosamente o logo e o nome do time. Em debate no fórum de mensagens oficial da equipe a respeito de quem usaria ou não as camisas antigas, mais de 40 participantes disseram que usariam, duas vezes mais do que aqueles que responderam que não usariam.

“Com certeza vou usar a camisa dos Redskin! Nunca achei racista! E continuo não achando!” dizia um deles, que se identificou como um eletricista que torce para o time desde 1968.

Vergonha e preservação

Incontáveis unidades de produtos licenciados são produzidos todos os anos para as equipes profissionais de futebol americano. De acordo com o cálculo de uma pessoa informada a respeito das operações de licenciamento da NFL (liga profissional), que pediu para não ser identificada porque não tem autorização para falar em nome da liga, nos 20 anos mais recentes, cerca de US$ 700 milhões em produtos do time de Washington foram vendidos em todo o país.

Lyra Monteiro, professora da Universidade Rutgers que estuda como artefatos culturais nos ajudam a entender a história americana, também viu isso como um resultado possível. De acordo com ela, quando as pessoas são forçadas a reconhecer algo que é ofensivo aos demais, “a reação costuma ser raivosa e defensiva”, especialmente em se tratando de algo com alguma importância emocional.

Ela disse que muitos sofrerão para deixar esses produtos para trás, principalmente levando em consideração seu significado para a infância. Os laços emocionais ajudam uma cultura a se perpetuar.

Mas  a professora Monteiro, formada em arqueologia, disse que a tendência de apagar todas as evidências de objetos reconhecidos como racistas ou ofensivos só contribui para aumentar a ignorância.

Ela citou a história da maquiagem conhecida como blackface, que seus alunos tinham dificuldade em enxergar como problemática porque raramente tinham contato com o problema até ele vir à tona em recentes escândalos políticos.

Ela espera que, para alguns torcedores, o confronto com um novo paradigma causado pela mudança de nome “pode ser uma profunda oportunidade de aprendizado".

“A pessoa conhece o poder daquele produto cultural, pois sabe o quanto ela significa para si", disse ela. “Isso pode levá-la a investigar mais a fundo.”

Pearson disse acreditar que muitas de suas antigas camisas foram doadas, mas via sentido em guardar uma peça ou outra, mesmo parecendo “uma relíquia de outra era".

Seu propósito: “Um lembrete do meu próprio fervor", disse ele. “Para me lembrar do quando as opiniões podem mudar.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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