O recado de Dilma

Você gostou da cerimônia do sorteio dos grupos para as Eliminatórias de 2014? Não teve nada de supimpa pela grana que o governo do Rio gastou para bancar a festa, não é mesmo? Tudo seguiu o padrão habitual da Fifa para esses eventos, com ligeiros toques locais, aquela coisa de imagens estereotipadas do País e homenagens a ícones nacionais.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2011 | 00h00

Mas o que me chamou a atenção, na verdade, foi a atitude de Dilma Rousseff. A presidente deixou clara a intenção de que não associar a imagem de seu governo com a turma da Fifa e de Ricardo Teixeira, na preparação da competição. Para a herdeira de Lula, a segunda Copa que o Brasil organiza precisa ter a cara de Pelé, o maior símbolo do futebol e personagem do mundo.

O recado havia sido dado durante a semana, quando Dilma designou o Rei como Embaixador da Copa no Brasil. Com o gesto simbólico, sinalizava que sua administração buscava uma guinada nessa história de Mundial estreitamente vinculado à família Fifa. Melhor, mais justo e mais sensato ancorar-se em Pelé do que a cartolas. Ok, o governo entrou de sola no negócio, ao distribuir dinheiro a rodo para construção de estádios e entornos. Só que prefere atrelá-lo a uma comemoração esportiva e a uma manifestação de pujança econômica.

Dilma foi sutil e direta, em seu breve discurso, na tarde de ontem. Em dois momentos, referiu-se a Pelé como "querido". Falou o nome do eterno ídolo antes daquele do presidente do Comitê Organizador Local, que mereceu menção protocolar. Em seguida, fez questão de sentar-se ao lado de Pelé durante o sorteio. Toda faceira, feliz e à vontade.

Como era mesmo? Para bom entendedor, meia palavra ? E adianta?

Colônia sempre? O Brasil deu salto de qualidade em muitos aspectos nos últimos anos e já não está na periferia do mundo. Ainda assim, aparece como colônia aos olhos dos europeus. A antiga possessão portuguesa enriquece e se atreve a investir na matriz de outrora. Um novo-rico, que sai a comprar o que vê pela frente, mas que não se livra de um quê de subserviência em suas maneiras.

Não me refiro ao tratamento dado a Joseph Blatter, presidente da Fifa por aqui tratado como chefe de estado, com direito até a 8 batedores em seus deslocamentos no Rio nestes dias agitados. O mesmo Blatter com o qual, em 2005 na Alemanha, eu e os companheiros Luiz Antonio Prosperi e Sebastião Moreira batemos longo papo, numa rua de Leipzig, antes da abertura da Copa das Confederações. A esperá-lo, então, pacientemente estava apenas o motorista.

O espírito de colonizado se manifesta de forma constrangedora no futebol fora de campo, nos bastidores, no mercado. A postura de clubes, jogadores e empresários é a do sujeito ávido por chamar a atenção dos senhores bem-nascidos e, num golpe de sorte, entrar para seu séquito. Repare como todo garoto, ao dar os primeiros chutes numa bola, fica de olho na Europa. Não se faz mais carreira no Corinthians, Santos, Fla, São Paulo. O objetivo é brilhar no Milan, na Inter, no Barça, no Real Madrid.

E do Real vem demonstração, mais uma vez, de como somos colônia na visão de quem está do lado de lá do Atlântico. Na sexta-feira, a Folha de S. Paulo contou que José Mourinho e Florentino Perez, o mandachuva do clube espanhol, em conferência telefônica quase intimaram o rapaz a juntar-se imediatamente ao pelotão de galácticos. Na linha, segundo o jornal, se encontravam também Neymar pai e o empresário do astro do Santos.

Se foi assim a conversa, a exortação soa menos como incentivo e mais como ordem. Como se Neymar já estivesse negociado ou como se fosse apenas questão de tempo para tirá-lo do Santos. Como se fosse um direito natural levá-lo embora. Imagino Perez a impacientar-se com a ousadia desse pessoal sul-americano, que teima em segurar o rapaz. Todos sabem que o futuro dele é trocar aquele uniforme branco para usar o nosso manto imaculado, deve supor o cartolão.

Agem assim porque se acostumaram desde sempre a soltar um dinheiro para importar das colônias malabaristas da bola que os farão divertir-se e enricar mais. Certo que as pechinchas rareiam e agora estão a pedir sempre mais pelos artistas com maior potencial. Mas, vá lá, o sacrifício compensa. Não há como resistir ao fascínio dos conquistadores. Não há limite para a ambição deles.

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