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Antero Greco
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O reencontro

Mágoa por paixão interrompida é dos sentimentos mais complicados de administrar. Mesmo assim, infeliz de quem nunca sofreu dor de cotovelo por levar pontapé nos fundilhos de um amor que bateu asas. É fossa para se carregar vida afora, ou até que surja novo inquilino no coração.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2015 | 03h00

Fim de relação em futebol, então, tem consequências imprevisíveis. Aquele que se sente abandonado encara o ídolo como cafajeste juramentado, de papel passado e lavrado em cartório de notas. A parceria de ontem vira lixo que não serve nem para reciclagem. As juras de amor, os beijos no símbolo da camisa, os acenos para a torcida se transformam em manifestações de perfídia e falsidade.

O começo desta crônica, versão paupérrima de historietas rodriguianas, tem como inspiração o reencontro de Paolo Guerrero com a Fiel, na tarde de hoje, no Itaquerão. O peruano pela primeira vez enfrentará o Corinthians, desde que o trocou pelo Flamengo, ainda no primeiro semestre. Ele não havia disputado o clássico anterior entre as duas equipes por acordo de cavalheiros. Desta vez, não há como fugir.

Por isso, se criou expectativa em torno da maneira como os alvinegros receberão o autor do gol do título mundial de 2012. O astro declamava fidelidade ao clube que o pescou no Hamburgo, mas fincou pé ao pedir um caminhão de dólares para renovar e se deixou seduzir por oferta rubro-negra.

As organizadas dizem que se comportarão com indiferença, farão de conta que não sabem nem de quem se trata, ao vê-lo pisar o solo sagrado de Itaquera. Torcedores avulsos se dividem, entre a simpatia e a aversão. Há os que o veem como herói do jogo inesquecível contra o Chelsea; por isso, merecedor de respeito. Há os que não o perdoam por trair a nação corintiana.

As duas reações são compreensíveis, porque humanas. Sempre haverá os sujeitos que guardarão só os bons momentos de um relacionamento, e neles enfiará as memórias. Outros arderão de ciúmes e não suportarão ver o companheiro de ontem a desfilar com outros. De fato, dói pra caramba imaginar a possibilidade de o ex-ídolo fazer um gol contra o time do passado. E o pior é que a maldição do ex costuma funcionar à perfeição no futebol...

De forma racional, não vaiaria o Guerrero. O moço honrou o Corinthians enquanto esteve no Parque; não se aproveitou dele. Como profissional, partiu em busca de nova aventura e de ganhos maiores, mudança normal na rotina de qualquer cidadão.

Mas, se der espaço para a emoção aflorar, não teria dúvida alguma em lascar-lhe palavrões cabeludos assim que pisasse o gramado, vaiá-lo a cada toque na bola e fingir – isso mesmo, fingir – que não representa mais nada para o Corinthians. No fundo, no fundo, com uma vontade danada de dizer: “Volta, Guerrero!” Tenha certeza de que, se isso um dia acontecer, será recebido de braços abertos, com carinho, flores e gritos de campeão.

Torcedor, como todo apaixonado que se preze, não se envergonha de ser contraditório e nem de ser de palavra. No que age muito bem.

O jogo? Ah, sim. Mais uma etapa no caminho do hexa corintiano. Tite tem a tropa serena e sob controle, sem problemas ou angústias. Panorama favorável para outra vitória? Claro, porém fica uma cisma de que esse jogo tem cara de surpresa.

Herança maldita? Doriva chegou outro dia no São Paulo, não viu a equipe ganhar sob seu comando, está a meio passo de desclassificação na Copa do Brasil, saiu do G-4 e já ensaia transferir a culpa para Juan Carlos Osorio. O rapaz disse que a equipe “não é compactada”, nem quando ataca nem quando defende. Sugeriu que existe hiato entre uma ação e outra, e que aí reside a origem da oscilação. Hum, talvez a política adequada para o momento fosse mexer pouco, já que a temporada está no fim, e planejar 2016 com calma. Se mudar demais, pode se complicar. A conferir que São Paulo se apresenta hoje na visita ao Coritiba.

Se prevalecer a razão, a Fiel aplaude Guerrero; se vingar a emoção, vai lascar-lhe vaias

ANTERO GRECO

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