O reencontro

Quando Muricy Ramalho descer do ônibus do Palmeiras, hoje à tarde no Morumbi, não significa voltar para casa. Muricy retornará ao lugar onde enfrentou situação que havia ficado lá atrás, a da demissão. Ele é uma referência hoje no Brasil, apesar de não acreditar nos seguidos elogios que o colocam no mesmo lugar dos grandes da beirada do campo. Como pode algum time demitir Muricy Ramalho? O São Paulo o fez. Nada me convence de que foi decisão pensada, criteriosamente calculada, minuciosamente estudada. Muricy foi demitido porque não aguentava mais a rotina do São Paulo e porque a rotina do São Paulo já não suportava ouvir "mestre" Muricy.E ele deixou bem evidente, dias após sair do clube, já do outro lado do muro, no Palmeiras, que ninguém pode demitir Muricy Ramalho, não hoje, não do jeito como aconteceu, não um técnico tricampeão brasileiro.As palavras amargas, quando ressaltava a forma como saiu (ou "foi saído") do São Paulo, vão "jogar" hoje no Morumbi. Ninguém no elenco do Palmeiras quer ganhar mais do que Muricy Ramalho. Nem mesmo um histórico jogador, o goleiro Oderdan Catani, 90 anos e em forma, dono da seguinte frase: "O Corinthians é adversário, o São Paulo inimigo".Ele não deve enfrentar um clima hostil no Morumbi, mas não será confortável reencontrar alguns dos algozes que durante pouco mais de três anos insistiram em descer a madeira num técnico que tem como lema principal "Aqui é trabalho".Assim como a "turma do amendoim" esquenta o ouvido de quem quer que esteja à sua frente no Palestra, Muricy também enfrentou a "turma da esfiha", no estádio do São Paulo. Os impacientes guardam o carro no estacionamento, gastam alto para ter a camisa do momento, transformam as numeradas num festival de impropérios todo jogo. Muricy os conhece bem.Mas a turma lá de cima, aquela para quem Muricy sempre devia alguma satisfação, a turma a quem, vez por outra, pedia desculpas, essa, se bobear, o receberá de braços abertos. Espero que o receba hoje assim.Muricy tem a tendência de simplificar a vida e as coisas que cercam o futebol. Ressalta a vida que escolheu, indo de estádio em estádio, sempre como sendo puramente uma partida de futebol. Mas é mais que isso, para ele hoje é mais que isso.Na arrancada para o terceiro título ano passado, Muricy teve tempo para treinar. Como agora, mesmo que seja uma semana apenas, uma semaninha, mas suficiente para, pela primeira vez, ser analisado como tendo colocado suas convicções e crenças em prática.E desde a vitória diante do Internacional, final de semana passado, tratou de descansar seus jogadores por dois dias. Dá para acreditar? Dois dias inteiros de folga, domingo e segunda? E tratou de torcer pela recuperação de Cleiton Xavier, com entorse no tornozelo. É nele que Muricy confia e é em Diego Souza que Muricy aposta. É deles que o Palmeiras depende para superar o Jason, "matar" o Jason, o que na ficção é impossível, mas no Brasileiro pode ser vida que não imita a arte (não acho arte filmes de terror, acho um horror).Convenhamos que uma vitória do Palmeiras tira muito da confiança de um time que se recuperou e insinuou, como insinua ainda, se considerar candidatíssimo ao título.A favor do São Paulo? A casa. Casa que não é mais de Muricy. Se ele vencer, talvez, na entrevista coletiva, além das palavras de respeito ao time que o acolheu por todo este tempo, diga "Pois é, aqui, me sinto em casa". * Locutor da ESPN e apresentador do "Linha de Passe"

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