O Rei do Pop

O repentino desaparecimento de Michael Jackson, um dos maiores gênios da música contemporânea, chocou três gerações de admiradores do seu trabalho: veteranos que dançaram nos bailinhos (hi-fis, como se dizia nos anos 70) ao som do Jackson 5; quarentões que tentaram imitar os passos do ídolo que dominou os anos 80 com dois álbuns espetaculares, Off the Wall e Thriller; e jovens que descobriram recentemente a sonoridade de um artista já estabelecido como lenda. Jackson foi, sobretudo, um dos ícones de seu tempo - e sua morte nos leva a refletir sobre o que mudou no mundo de lá para cá. Não foi pouca coisa. Os anos 80 ficaram marcados por muitos eventos, mas um dos mais significativos, culturalmente, foi a explosão dos blockbusters, ou arrasa-quarteirão, numa tentativa de traduzir o significado da palavra para o nosso idioma.Blockbuster é um adjetivo que, originalmente, se aplicava ao mercado do cinema. Um dos grandes fenômenos dos anos 80 foi o conceito de filme arrasa-quarteirão, aquele que todo mundo dava a vida para ver, gerando bilheterias bilionárias, como Os Caçadores da Arca Perdida, De Volta para o Futuro, ET e Top Gun. Assim como esses filmes, os discos de Jackson vendiam aos milhões. Num tempo pré-internet, a impressão que tínhamos era a de que todas as pessoas do mundo viam basicamente os mesmos filmes e ouviam essencialmente as mesmas músicas. Hoje, com centenas de canais de TV a cabo, milhares de videogames e milhões de sites de internet, com suas comunidades virtuais e downloads piratas de música, os blockbusters morreram. Ou, se não morreram, agonizam, restritos aos Jonas Brothers e Hannas Montanas da vida.Pode não parecer, mas, como sempre, o assunto desta coluna é o futebol. Na verdade, falei da morte dos blockbusters para constatar que a única coisa no mundo que continua sendo um autêntico evento de massas é o bom e velho esporte bretão. Se nunca mais veremos um álbum vender mais de 100 milhões de cópias, como Thriller, o público que ama futebol continua crescendo. Se a TV aberta vem perdendo audiência para a TV a cabo, especialmente entre as classes mais altas, um bom jogo ainda é garantia de altos índices no Ibope. Se o cinema autoral e independente vem ganhando espaço em relação aos filmes arrasa-quarteirão, o futebol não para de crescer, conquistando novos mercados. Aliás, a chegada dos EUA à final da Copa das Confederações é outra boa notícia para o esporte que mais cresce no maior mercado do planeta - um mercado que antes parecia inacessível.A magia do futebol é que, ao contrário dos ídolos da música e dos gêneros cinematográficos, ele agrada virtualmente a todos. Se Jonas Brothers é coisa de menininha e filmes de terror entusiasmam apenas os adolescentes, o futebol cativa o milionário e o pobre, o culto e o simplório, o jovem e o idoso. As mulheres, que eram a última fronteira do esporte, estão cada vez mais ligadas no mundo da bola.Michael Jackson, que deixará um vazio na partitura do mundo, foi aclamado, com muita justiça, como o Rei do Pop. Mas nem ele chegou a fazer sombra para aquela que, entre todas as forças do entretenimento, é a mais inabalável: o futebol. Uma pena que falte, à maioria dos dirigentes esportivos, a paixão, a criatividade e o profissionalismo dos grandes produtores do cinema e da música. O futebol resiste a tudo, até à incompetência dos que regem seus destinos. Como aqueles fãs desesperados que acompanharam Jackson em todas as fases da carreira, na glória e no abismo, na vida e na morte, nós, apaixonados pelo esporte, jamais abandonaremos o nosso santo futebolzinho de cada dia.

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