O reverso da medalha

Cielo e Ketleyn voltaram da China premiados. Mas penaram para subir ao pódio

O Estadao de S.Paulo

24 de agosto de 2008 | 00h00

O refinanciamento de um carro foi o último esforço antes dos Jogos de Pequim para que César Augusto Cielo e sua mulher, Flávia, pudessem presenciar um momento histórico brasileiro e o ápice de uma aposta pessoal de quase 20 anos. Em 20 segundos e 30 centésimos, piscava no primeiro lugar do placar eletrônico do fabuloso Cubo d?Água um nome bastante conhecido: César, o pai, viu César, o filho, conquistar a primeira medalha de ouro olímpica da natação nacional, nos 50 metros livre. A redenção do nadador da raia 4 e também de toda uma família que, por pouco, não conseguiu ver Cielo nadar, por falta de ingressos.César Augusto nunca duvidou da paixão do primogênito pela competição - também é pai de Fernanda, de 17 anos, boa nadadora, mas que não se submete à rígida e estafante disciplina necessária ao alto nível. Filho de um pediatra e de uma professora universitária de educação física, Cielo sempre foi incentivado a fazer esporte. E o inconformismo nas derrotas moldou o campeão.Primeiro tentou o judô. Mas, maior que os meninos de sua idade, subiu de categoria. Antes, só ganhava; depois, só perdia. Ainda passou pelo vôlei, mas não se adaptou ao esporte coletivo. Testar seus limites, lutar consigo mesmo, esse era o desejo do garoto. "Eu sou meu próprio psicólogo. Sou cabeça dura e só aprendo comigo mesmo", diz o nadador. "Já chorei muito por causa de derrotas. Hoje, aprendi a transformar isso em motivação."O gosto pela água foi natural. César, pequenininho, 2 anos incompletos, adorava os passeios no litoral paulista. Não queria deixar o mar de jeito nenhum. Cair na piscina, contudo, foi influência direta dos pais - ambos se dedicavam à natação. Como não existe piscina pública em Santa Bárbara d?Oeste, a 130 km da capital paulista, César só pôde dar suas primeiras braçadas porque a família de classe média é sócia do Esporte Clube Barbarense.Da convivência no clube social começaram os treinamentos. César Cielo tinha 8 anos quando começou a participar de seus primeiros campeonatos. Mas perder sempre foi um problema. Com 10 anos, chegou a um torneio estadual com o 5º tempo. Nas eliminatórias, conseguiu apenas a 19ª marca. Nem à final chegou. "Ele chorou de São Paulo a Santa Bárbara. Queria deixar a natação", lembra o pai. O trauma foi superado com ajuda de psicólogo e muita conversa. Mas a decisão do retorno foi definitiva. Ali nasceu um nadador.Já em ritmo competitivo, César deixou de treinar nas piscinas do Barbarense (que, depois dos três ouros e da prata do Pan do Rio, ganharam seu nome) e foi levado ao Clube de Campo de Piracicaba. Com 16 anos, campeão brasileiro juvenil, chegou de mãos dadas com a mãe Flávia no Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo. Bateu na porta da rotina imposta pelo início do profissionalismo: morar sozinho em uma cidade desconhecida, com uma pequena ajuda de custo do clube e bancado pelos pais. Para o menino nascido em 10 de janeiro de 1987, era a chance única de treinar com o maior nome da natação em velocidade do Brasil: Gustavo Borges, dono de quatro medalhas olímpicas, o ídolo que virou colega de raia.Seguindo o caminho de Gustavo, que via no jovem um sucessor, Cielo decidiu dar o grande salto da promissora carreira em águas estrangeiras. Em 2006, conseguiu vaga na Universidade de Auburn, uma pequena cidade de 54 mil habitantes no Estado do Alabama, nos Estados Unidos. Foi em uma agência de turismo de Santa Bárbara d?Oeste que os pais compraram a passagem. O filho foi treinar com os melhores do mundo e estudar Comércio Exterior. Já completou dois anos de faculdade (cursando, até mesmo, a surpreendente disciplina de Criminologia). A possibilidade de continuar os estudos será fundamental para a definição do próximo local de treinamentos do nadador, que pode rumar para a Europa - deu entrada nos papéis para a cidadania italiana - ou para a Austrália.Em maio, Cielo tornou-se oficialmente um nadador profissional. Em plena campanha olímpica, conseguiu o patrocínio da gigante coreana Samsung. O ex-nadador Fernando Scherer, o Xuxa, virou seu empresário. O início de um alívio para o bolso dos Cielo.Mas César Augusto não se importa com o rótulo de "paitrocinador" - ele mesmo recorre ao título para explicar sua atuação. "E, se for o caso, continuarei sendo", diz. O médico não admite intromissões na bem-sucedida carreira do filho, traçada até hoje por ele e por Flávia. O pai do medalhista se irrita com a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA). "Quando César decidiu treinar nos Estados Unidos, o pagamento que ele recebia foi suspenso", afirma, falando em retaliação da entidade pela decisão do nadador. "A CBDA quer que ele fique aqui."Outro ponto de embate entre a família Cielo e CBDA, diz o pai, ocorreu no início de julho. "Veio uma ameaça de suspensão do pagamento quando dissemos que o César não iria comparecer a uma solenidade com o presidente Lula no Palácio do Planalto." A família não concordou que o nadador, em seus momentos finais de preparação para os Jogos de Pequim, fizesse o percurso Auburn-Brasília-Auburn apenas para uma solenidade. O pagamento do nadador para a campanha olímpica (cerca de R$ 8 mil mensais) esteve em risco. "Ninguém vai pressionar o César a fazer o que ele não quer. E se vier pressionar, eu espano. Sempre fiz tudo pelo meu filho. Ele não está à venda."

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