Tasso Marcelo/AE
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'O Rio mostrou o bem que faria para os Jogos'

Profissional conta os segredos da vitória de Londres e da capital carioca na disputa para sediar a Olimpíada

Leonardo Maia / RIO, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

ENTREVISTA

Mike Lee, consultor responsável pela elaboração do projeto de candidatura do Rio para os Jogos Olímpicos de 2016

Um dos responsáveis pela vitória da candidatura do Rio para sediar as Olimpíadas de 2016, o inglês Mike Lee é um dos nomes mais cobiçados do mercado quando se trata de traçar um planejamento para concorrer pela organização de grandes eventos, como Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo. Diretor de Comunicação e Assuntos Públicos da campanha de Londres 2012 e consultor da Rio 2016 e do Catar para a Copa do Mundo de 2022, Lee concedeu entrevista ao Estado e comentou o motivo da vitória destas candidaturas:

Como foi planejada a candidatura de Londres 2012 para superar as favoritas Paris e Madri?

A chave foi mostrar o que Londres acrescentaria ao movimento olímpico. Paris e Madri mostraram que precisavam muito dos Jogos. Nós mostramos que Londres traria muita coisa para os Jogos, em particular a reaproximação com os jovens.

Como trabalhou a imagem do Rio, uma vez que a cidade sofre com sérios problemas, como violência e transporte?

Havia uma preocupação central de se abordar os pontos negativos. No começo, houve muita discussão sobre os aspectos que eram fáceis de se vender sobre a cidade e o Brasil. Paixão, celebração, o amor pelo esporte, carnaval, as praias, a beleza natural da cidade, essas coisas óbvias. Mas também focamos em tratar de temas como infraestrutura, investimentos, a economia brasileira e segurança. Todo o esforço dos três níveis de governo, os programas de investimento como o PAC, tudo isso foi trazido para dentro da campanha.

O que pesa na hora da escolha das cidades-sede? Trata-se apenas de um jogo político?

Como numa campanha política, você tem de entender os eleitores. Comecei minha carreira na política, no Partido Trabalhista britânico. Mas não basta apenas o lado político. No caso do Rio, por exemplo, tivemos de mostrar como a cidade se beneficiaria dos Jogos e como os Jogos se beneficiariam de ter a cidade como palco. Mostramos que a cidade é um bom mercado para patrocinadores e emissoras. Mas claro que você tem de desenvolver o lado pessoal. Os votantes têm de confiar na liderança da cidade candidata. O Rio preencheu essas exigências.

Nesse aspecto, qual foi a importância da figura de Lula para a vitória do Rio?

Foi muito importante. Ele é uma figura internacional. Foi um suporte político e econômico. Lula viajou o mundo conosco, conhecendo os membros do COI, os chefes de Estado. Foi muito importante do ponto de vista político ter um chefe de Estado tão participativo. Chicago, por exemplo, não teve. Eles tinham Obama, que foi eleito durante o processo, mas ele não se tornou ativo até pouco antes do fim. Era tarde demais.

Quais são os principais desafios do Rio para sediar grandes Jogos Olímpicos?

Toda cidade enfrenta grandes desafios. Londres enfrentou muitas questões sobre infraestrutura, orçamento e controvérsias com relação aos ingressos. Havia também preocupação com segurança. O que é importante aqui no Rio é que os responsáveis estão cientes desses desafios. O progresso até agora é realmente bom. As coisas estão nos trilhos. Mas não pode haver espaço para complacência.

Você também participou da campanha do Catar 2022. Foi um grande assombro para o mundo a vitória daquele país. Quais foram os trunfos?

A campanha do Catar foi muito boa. O coração dela foi mostrar que a Copa do Mundo nunca tinha ido para o Oriente Médio e que teria de ir em algum momento. E teria de ir para um país que pudesse investir pesado e dar as condições de segurança necessárias. O país é abençoado por recursos naturais, como petróleo e gás. E ama futebol. Tudo funcionou. Trabalhamos duro para colocar o Catar no mapa do futebol.

O que tem a dizer sobre as denúncias de corrupção acerca da campanha do Catar?

As principais alegações foram contra Mohammed Bin Hammam, um catariano. Isso gerou uma tempestade porque ele estava em campanha contra o (presidente da Fifa) Joseph Blatter. Nunca houve alegações contra a campanha em si. O que foi divulgado veio de uma pessoa que trabalhou na campanha e ficou ressentida ao deixá-la. Depois ela confessou que inventou tudo. Nunca houve nenhuma acusação formal. (Na verdade, a acusação foi feita pelo presidente da Concacaf - Confederação centro e norte-americana de futebol - Jack Warner).

Qual o papel do marketing no futebol mundial atual?

O céu é o limite para o futebol. Aqui no Brasil você tem grandes times, grandes jogadores e o sucesso fantástico da seleção nacional. Mas as marcas líderes realmente saem da Europa, em termos de marketing. Se você olha para o Manchester United, eles fazem coisas novas o tempo todo. São exemplos que o futebol brasileiro tem de seguir.

Há muita preocupação na Fifa quanto a uma possível classificação da China para a Copa de 2014. O mercado asiático, em especial o chinês, é mesmo a próxima fronteira a ser conquistada no futebol?

É um mercado muito importante. A Ásia tem várias economias dinâmicas. China tem uma economia que cresce muito. É uma parte excitante do mundo, assim como o Brasil e o Oriente Médio. Os clubes europeus estão explorando muito bem. Eles vão em excursões de pré-temporada, fazem contratos de patrocínio, contratam jogadores (asiáticos). Dada a qualidade do futebol brasileiro como marca, seus clubes e jogadores, seria muito empolgante (que o Brasil investisse na China).

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