O São Paulo que não entra em campo

Cerca de 80 funcionários trabalham no CT pelo bem-estar dos atletas. A taça, se conquistada, também será deles

Amanda Romanelli, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Um outro time do São Paulo pode comemorar hoje o hexacampeonato brasileiro. Muitos deles nem sequer estarão no Bezerrão e vão acompanhar a partida pela TV ou pelo rádio, mas não vão deixar de torcer. Outros estarão na linha de frente, com o time, presenciando todos os passos de Muricy Ramalho e seus jogadores desde o ônibus até o vestiário. O São Paulo que não entra em campo e o torcedor não vê está, em grande parte, no grupo de funcionários que trabalha no Centro de Treinamento da Barra Funda - são cerca de 80 pessoas, nas mais variadas funções. Muitos deles, quando lá chegaram, tinham seus times de coração. Hoje, certamente, viraram (nem que seja um pouco) são-paulinos.O time da Barra Funda é entrosado. De acordo com o gerente-geral José Carlos dos Santos, a maioria dos funcionários tem entre 15 e 20 anos de casa. Ele mesmo, formado em direito e ciências contábeis, começou a trabalhar no clube há 23 anos, como salva-vidas. Dentre todos, nenhum tem tanta experiência como João dos Santos Silva. Em 49 anos de vida, passou os últimos 29 em várias funções. Por pouco mais de um ano, não comemorou o primeiro título brasileiro, em 1977. "Comecei a trabalhar no São Paulo no dia 1º de agosto de 1979, como vigilante do Morumbi." E lá ficou até a inauguração do CT da Barra Funda - cujo nome oficial é Frederico Antonio Germano Menzen, em homenagem ao sócio número 1 do clube -, em 1988. Hoje, Joãozinho é copeiro e responsável por alguns dos mimos solicitados pelos jogadores. O último deles, revela, virou mania no refeitório. "O Hernanes é viciado em pão. Come uns oito a cada refeição, mas sempre com manteiga e quentinho, com a borda queimadinha." O costume acabou adotado pelo restante do elenco, que passou a encontrar cestinhas com pão nas mesas. A preocupação é saber se quando Hernanes for embora - o que não parece estar distante - o mimo continuará.Com tanto tempo de São Paulo, Joãozinho guarda relíquias. "Eu me lembro de muita história, mas também já me esqueci de várias outras", diz, rindo. O que não apaga da memória são dois presentes que recebeu. Um deles, a faixa de campeão pela conquista de uma das Taças Libertadores da década de 90. "Fui o único funcionário a ganhar essa faixa do (ex) presidente José Eduardo Mesquita Pimenta." Também ganhou um relógio de Telê Santana, durante um treino. "O vidro está quebrado, preciso arrumar, mas sempre vou guardar esse presente."O CT da Barra Funda, que pelo menos uma vez por semana recebe os jogadores e a comissão técnica em concentração, funciona como um hotel. Atualmente, sete atletas moram lá. E, em um lugar que sempre tem hóspedes, os serviços funcionam 24 horas. Adelzira Vital da Silva, de 60 anos, 17 no CT e 4 no Morumbi, é a responsável pela limpeza. Junto das auxiliares Maria de Lourdes e Maria do Socorro, cuida da bagunça deixada pelos atletas. "Na verdade, eles até são arrumadinhos, não fazem nada de anormal. Trato todos eles como se fossem meus filhos", diz a "tia" Adelzira, que ainda busca tempo para cuidar dos quatro filhos, sete netos e concluir o ensino médio.Mas, embora o CT pareça com um hotel, o São Paulo deixa claro para os jogadores que existem limites. Quem mora na concentração, por exemplo, não pode chegar depois das 23 horas. Também não pode se ausentar ou receber visitas sem comunicar expressamente a direção. O mesmo vale para um jogador que, eventualmente, queira passar uma noite no CT. "Ele precisa fazer um comunicado por escrito. Se não fizer, não entra", conta o gerente-geral José Carlos. Nem que seja o goleiro Rogério Ceni, com 18 anos de São Paulo.Mas, se um dia o goleiro-artilheiro sair da linha - algo bem improvável, visto que Rogério é tido como exemplo de bom comportamento -, o "prefeito" do CT poderá intervir. É Gilberto Morais que, mesmo que não trabalhasse na administração do local, já teria seu lugar na galeria de grandes prestadores de serviços ao clube. Ex-goleiro e ex-preparador de goleiros do time, foi ele quem, em 7 de setembro de 1990, aprovou um menino nascido em Pato Branco (PR) para as categorias de base. Foi o "professor" Gilberto quem garantiu que Rogério ficaria no Morumbi.Na área de campos e jardinagem trabalham alguns dos "novatos" do CT. Vanderley Barbosa Lopes, de 42 anos, está há quase sete na Barra Funda. Foi levado para o clube pelo tio, Brasilino, um dos mais antigos funcionários do clube, e hoje cuida, com mais duas pessoas, dos quatro campos. Já o baiano Rosalvo Almeida Santos, de 52 anos, trabalha com o colega Juraci no cartão de visitas do CT: a parte de jardinagem. Desde as árvores que praticamente formam um túnel entre o portão de entrada e o estacionamento, até as várias espécies de flores que ornamentam a entrada do prédio-sede e da área da imprensa - são azaléias, pingos de ouro, begônias, sálvias, lírios da paz e primaveras. Rosalvo, também conhecido como tio Cid, é um dos "convertidos". Admite que, antes, era fã do Rubro-Negro baiano. "Toda vida me interessei por futebol. Antes, gostava do Vitória. Agora, até esqueci. Sou São Paulo, um orgulho pra gente."NA LINHA DE FRENTEAlguns personagens, contudo, têm atuação mais efetiva no dia-a-dia com os jogadores. E bota efetiva nisso, admite Marcos Roberto Costa Santos, o Marcão, ex-boxeador de 33 anos que, junto do parceiro Edvaldo, chefia a segurança da delegação, desde a saída para viagens até o momento em que os jogadores estão apenas treinando . "O meu trabalho nunca pode dar errado." Em 11 anos de clube, Marcão já passou por muitos momentos de tensão, como invasões de vestiário, tentativas de agressão e vandalismo ao ônibus da delegação. E, por incrível que pareça, diz que é muito difícil trabalhar na boa fase do time, assim como nos momentos ruins. "Não é fácil lidar com o assédio de muitos torcedores e com a inveja dos rivais."Mas é a atual função de Aílton Rodrigues, de 45 anos, que causa inveja a muito marmanjo - pela proximidade com os craques - e (por que não dizer?) suspiros nas moças -, por causa da função, digamos, propriamente dita. Aílton, em parceria com o colega Almir, trabalha como massagista e já contabiliza 27 anos de São Paulo. Sua relação com o clube, contudo, vem desde criança. Não necessariamente como torcedor. "Cresci em uma favela perto do Morumbi. Fazia uns bicos como guardador de carros e, depois, fui levado à área social, para ser pegador de bolinhas nas quadras de tênis." O bem-estar dos atletas e também a cura depois das batalhas em campo passa, necessariamente, pelas mãos de Ailton.

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