O tédio no banco de reservas

O banco de reservas não existiu desde sempre. Quando comecei a ver futebol ele não existia: eram proibidas as substituições. Nem o goleiro podia ser substituído.Lembro de um Palmeiras x Portuguesa, disputado mais ou menos mil anos atrás, quando o grande Valdir de Moraes deixou o campo seriamente machucado e para seu lugar foi Enio Andrade, na ocasião jogando na meia esquerda do time.

Ugo Giorgetti, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Depois começaram as substituições e o banco se tornou uma presença familiar. A partir daí, me fascina. Quando as equipes entram em campo, meu olhar logo vai para aquele pequeno grupo de jogadores que lentamente, cientes de que ninguém presta a atenção neles, caminha em direção ao banco, às vezes com as mãos negligentemente enfiadas nos bolsos das calças dos agasalhos, como se quisessem mesmo passar despercebidos. Sentam e lá ficam observando os companheiros jogando.

Quando a câmera os focaliza, têm já algumas atitudes ensaiadas, alguns sorrisos talvez encenados previamente, uma naturalidade forçada. A televisão nesse caso, no entanto, é insuficiente. Apenas quem vai ao campo pode dedicar sua total atenção ao banco e vê-lo como realmente é. Claro que só um excêntrico iria ao campo para prestar atenção ao banco dos reservas. Confesso que sou um deles. No mínimo divido minha atenção entre o que se passa no banco e no campo.

E no banco vejo principalmente tédio. O enorme, pesado aborrecimento de estar ali uniformizado, preparado para uma batalha que não chega nunca. Ou chega poucas vezes. Alguns jogadores sabem que não vão jogar, ou que a possibilidade é muito pouca. Esses é que revelam o maior tédio, pois a rotina de não jogar os torna um pouco acomodados a um destino que não podem mudar. Outros querem jogar, sabem que podem jogar, mas, por alguma razão, joga outro.

Na atitude do que aguarda sua vez no banco se pode ler, mesmo que disfarçada penosamente, toda uma história de frustração, de injustiça mal suportada e até raiva. Esses sabem que podem entrar. Mas nunca têm certeza. Nessa corda bamba equilibram as ambições e os desejos de suas vidas.

Destacado de todos, há o goleiro reserva, que todos torcem para que não entre, ele em primeiro lugar. Se há uma posição na qual a substituição assusta é o gol. O goleiro reserva espera não jogar. Fica no banco pronto para o caso de improvável desgraça e por isso é mais conformado, leva água e toalha para os outros, é o mais prestativo. Geralmente é uma excelente pessoa, e precisa ser, para suportar anos e anos de banco.

Fico imaginando o caso de jogadores famosos, astros em suas equipes, obrigados a cumprir a sina do banco. Jogadores que são chamados para a seleção, por exemplo, e sabem que têm chances mínimas de entrar. E são, de repente, transformados em jogadores normais, jogadores de banco.

Como voltam a seus clubes esses jogadores, depois de experiências de frustração? Talvez melhores. Uma lição de humildade é sempre boa. Ao voltar para seus clubes e seus privilégios é possível que valorizem mais os companheiros que estão no banco. Exatamente como fazem os treinadores espertos. Suas costumeiras frases de efeito, decoradas, iguais, falando sempre da união do "elenco" e do "grupo" são no fundo apelos desesperados à boa vontade dos reservas.

Por isso, quando vou a campo continuo olhando primeiro para o banco.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.